
A PROCISSÃO DAS ALMAS
- Em tempos muito remotos havia em uma pequena cidade da Itália, uma senhora muito religiosa. Todos os dias quer fizesse sol, chuva ou frio, não deixava de ir à missa. Assim que o dia começava a clarear e iniciavam os primeiros raios de sol, essa senhora já se levantava. Vestia seu vestido preto, já meio surrado, calçava os sapatos que, na véspera já havia deixado próximo à cama, e após um rápido desjejum, pegava o velho xale de lã, colocava-o nas costas ou sobre a cabeça se havia garoa e saía a passos lentos em direção a igreja, que não era muito distante de sua casa.
- Na maioria das vezes chegava tão cedo que as portas da igreja ainda nem haviam sido abertas mas, mesmo assim ficava esperando pacientemente até aparecer alguém que viesse abrir.
- Geralmente quem fazia a abertura da igreja era o sacristão ou então o pároco do local que quase sempre vinha apressado, cumprimentando todos que ali estavam e imediatamente ia direto para a sacristia, colocar os aparatos sacerdotais para a celebração da missa.
- A mulher, também, assim que entrava na igreja procurava um dos primeiros bancos e ajoelhando-se, tirava de dentro do bolso do vestido um enorme rosário e fazia suas orações enquanto aguardava o início da missa.
- Todos nessa cidade conheciam essa senhora, e por alguns era chamada de “pinzochera” que quer dizer “beata” ou “carola” palavra muito usada no sul da Itália para pessoa muito devota e que não sai da igreja.
- Nesse “paese,” como são chamadas as pequenas cidades da baixa Itália, não havia diversões e as poucas festas que existiam, eram as da colheita da uva, azeitonas, e outros produtos da lavoura que a cada certo tempo, os moradores se reuniam e organizavam essas festas.
Fora estas não havia outras festividades, a não ser as religiosas.
Estas não podiam faltar de maneira alguma, com enormes procissões, homens carregando andores, com santos muito bem ornamentados, com mantos púrpuros, bordados de estrelas, com fitas e flores, e crianças, meninos e meninas vestidos de anjo. Muitas vezes a procissão tinha o acompanhamento da banda musical e queima de fogos.
- Mas não fugindo ao assunto inicial, certa noite essa senhora como sempre, foi se deitar muito cedo. Já haviam se passado algumas horas de sono, quando foi despertada por uma claridade em seu quarto. Levantou-se rapidamente, pensando que já havia amanhecido e como sempre fazia, foi se preparando para ir à missa.
- Antes de sair de casa, deu uma espiada pela fresta da janela. Ouvia um sussurro de vozes na rua. Viu então que estava passando uma enorme procissão bem defronte a casa. Nesse momento, ela percebeu que havia se enganado com o horário e que ainda era noite. Havia se confundido totalmente, por motivo do forte clarão de lua cheia, que brilhava no céu com tanta intensidade e dava a impressão de que já era dia.
- Ficou admirada e disse para si mesma: Numa hora dessa procissão? Que coisa esquisita? Nunca houve procissões a esta hora? Mas já que estou vestida, vou acompanhar.
Rapidamente foi para a rua e juntou-se com aquela multidão, que caminhavam à passos lentos, e todas com vestes escuras e compridas até os pés. Todos tinham as cabeças cobertas com um capuz semelhante a dos frades capuchinhos.
Cada um deles segurava uma vela acesa nas mãos e percebeu durante o trajeto, que todos andavam cabisbaixos e não olhavam para nenhum dos lados. Ninguém se falava, nem tão pouco rezavam ou cantavam algum cantigo religioso. Vez ou outra ouvia-se um pequeno murmúrio, mas muito ao longe. Intrigada, tomou coragem e tocou com as mãos no ombro de uma pessoa que estava à sua frente e interrogou se ela poderia dizer que procissão era aquela.
- Não houve resposta.
- Novamente fez a mesma pergunta, e dessa vez ficou surpresa, e assustada, pois no momento em que essa pessoa se virou para lhe dar a resposta ela a reconheceu pois era uma senhora que havia sido sua comadre e que há pouco tempo havia falecido.
- Exclamou apavorada: Comadre? Voce não havia morrido? O que voce está fazendo nesta procissão?
Disse-lhe a outra:
- Sim comadre, verdadeiramente eu estou morta e esta é a procissão das almas, por isso estamos indo para a missa dos mortos. Como você sabe, hoje comemora-se o nosso dia, o “dia de finados” mas agora não saia da fila, acompanhe- nos até a igreja, entre lá, e assista a missa até o final, mas quando o padre disser o “Dominus Vobiscum”, saia correndo, do contrário voce ficará presa lá dentro e irá fazer parte com aqueles que já partiram deste mundo.
- Enquanto a falecida falava, essa senhora pôde notar que no rosto de sua comadre havia poucos traços e sinais de quando era viva. Seu semblante era macerado e desfigurado parecendo um rosto de cera.
- Ficou aterrorizada... e enquanto iam caminhando, disfarçadamente ia observando que todos aqueles que seguiam aquela procissão também tinham os rostos disformes e descarnados. Exclamou em silêncio: São todos caveiras, estão apenas revestidas com uma cobertura de pele. Observou também que as velas que cada um deles levava, eram apoiadas em cima de ossos humanos.
Novamente lhe voltou o pavor. Pensou em sair correndo e retornar para casa, mas lembrou-se daquilo que a falecida lhe dissera, que era para não se ausentar e acompanhar até o fim, até entrar na igreja. E sair somente quando o padre proferisse as palavras do” Dominus Vobiscum”.
Já estavam quase se aproximando da igreja e esta já se encontrava com as portas abertas. Assim que aquele cortejo entrou, podia-se notar ali dentro, um ar sinistro e lúgubre. Com tantas velas acesas, assim mesmo o ambiente era escuro. O cheiro queimado de velas e de incenso, dava ao ambiente mais um clima de terror, do que de um templo religioso.
A mulher estava gelada e trêmula, não via a hora de que tudo aquilo terminasse. Queria rezar mas nem isto conseguia, havia se esquecido de todas as orações, ladainhas e cânticos religiosos. Parecia que estava vivendo um pesadelo, mas ficou ansiosa e atenta, aguardando as palavras do vigário, cujo rosto ela ainda não tinha visto, pois o mesmo rezava a missa voltado de costas para a igreja.
- Num determinado momento notou que a missa, já estava se findando e o padre voltou-se repentinamente para a multidão e disse: “ Dominus Vobiscum...” e, enquanto dizia as tais palavras, ela notou que o padre também era uma caveira, estava apenas vestido com as vestes sacerdotais.
- Rapidamente, iniciou os primeiros passos para sair dali, mas os pés, e as pernas não obedeciam devido o nervosismo e medo. Lembrou-se de tantos e tantos santos e implorou a ajuda de todos que lhe vieram na mente. De repente, num esforço sobrenatural saiu numa embalada tremenda, mas as portas da igreja já estavam se fechando. Fez um esforço enorme, e conseguiu atravessar pelo vão, mas assim que o corpo havia passado a porta se trancou por completo e uma parte da saia ficou presa entre as duas folhas da porta. Não teve dúvidas, desvencilhou-se da mesma e largou-a alí mesmo ficando uma parte dentro do templo, e a outra fora.
- Chegando em casa, contou aos familiares tudo aquilo que lhe havia acontecido e todos duvidaram, mas como já estava amanhecendo, ela fez questão de leva-los até a igreja e mostrar a veracidade dos fatos. De longe avistaram as portas da igreja fechada pois ainda era muito cedo, mas quando todos se aproximaram puderam constatar a veracidade dos fatos. Todos viram a saia presa entre o vão das duas portas.
Esta é uma estória que minha avó materna Antonia Marsicano, nascida na cidade do Scário, Comune di San Giovanni a Piro – Província de Salerno, Italia, contava, para minha mãe e para os irmãos de minha mãe.
E quem contava para minha avó era a mãe dela, minha bisavó que se chamava Angela Brando, também da cidade do Scário, (Salerno)
Já li outras histórias semelhantes a esta, mas, quem pode afirmar que não existiram, ou ainda existem tais procissões?
Atenciosamente,
Ernani Nocciolini









