segunda-feira, 9 de março de 2015

RUA DIREITA DOIS MIL E QUATORZE

Rua Direita anos 40
RUA DIREITA 2.014


Rua Direita:  gente que vem, gente que vai, gente que vê as vitrines.
Mas quem é aquela mulher que está defronte a loja  que toca o forró?
 O som é alto, dói os tímpanos de quem ouve e passa mesmo ao longe!
 Onde está a fiscalização e as leis do município que não observam isto?
A mulher dança ...  dança ...  sozinha! se gesticula toda, parece até que está possuída.  Sacoleja o corpo, se retorce e  gira. Agora parece um parafuso,   a pintura é  exagerada.  Moça feia. 
A boca se abre, fecha. Abre novamente a boca de uma maneira exagerada parecendo um marionete.  Agora não fecha mais.   Engano meu, fechou.  Coloca uma das mão na barriga, se abaixa devagarzinho; vai dançar o frevo,  pensei.
Largou os sapatos na calçada. Com os pés descalços ajudam mais ela se requebrar.  Agora com o ritmo acelerado do forró, ela se retorce cada vez mais. Parece uma salamandra jogada no fogo.  
Está transtornada,  entusiasmada no ritmo da dança nem pisca os olhos e parece não ver aqueles que passam e estão ao seu redor.
Parei um pouco, fiquei observando os movimentos.  Parece de borracha disse no pensamento. Não agüentei o barulho e o rodopiar da mulher. Vou ter uma crise de labirintite raciocinei novamente.
Boca pintada exageradamente, cabelos desgrenhados,short  minúsculo.
Fui à perfumaria O  Boticário. Voltei e a mulher continua dançando e se gesticulando no mesmo frenesi. Agora parece que rebola, com mais intensidade. Continua sempre com uma das mãos na barriga, e parecendo querer dar um grito,  faz uma  massagem num movimento sensual.
Passa um homem e diz: põe ela no fogão!  Será que sabe cozinhar?
Diz o outro homem: dá um tanque cheio de roupas sujas pra ela lavar... garanto que não sabe!
Entro na Sé, já saindo da rua direita,  noto que o mesmo pregador do evangelho que estava na minha ida, ainda está no mesmo local. 
Continua com a mesma pregação do evangelho. Anuncia a todos que passam o fim do mundo e todas as ameaças do apocalipse.
Usa um aparelhinho a pilha no microfone para não cansar a voz!
Um imitador de Luiz Gonzaga também continua a resfolegar sua sanfona e no som da Asa Branca,  procura angariar alguns trocados das pessoas que o rodeiam.
Geralmente os apreciadores são conterrâneos e saudosistas do Gonzagão!
Um maluco morador de rua, deitado embaixo da estátua do Padre José de Anchieta, aponta com o dedo indicador algo que somente ele vê. Abre a boca, não sei se de fome ou de sono. Aponta com o dedo novamente.  Fala  certas palavras que não dá pra se entender. Acho que  somente ele sabe e enxerga com quem está falando.
Caminho mais à frente, Mais um pregador tentando fazer  as pessoas que o rodeiam entender a parábola que Jesus falou sobre a videira. 
 Gritava em voz alta e empenhava-se de corpo e alma  fazer àqueles que o ouviam entender o evangelho  e a Parábola da videira e o lavrador.
Atravesso a praça  em direção ao metrô.
Desço as escadas rolantes. Uma mulher me olha.
Digo a ela: A praça da Sé dá um livro de páginas intermináveis!
Ela confirma com um gesto que sim.

Ernani Nocciolini
SP. 25 março/2.014

OBSERVAÇÃO: A foto postada é de Ernestina Salerno e o filho Reinaldo Barelli
Não tem nada haver com o conto Rua Direita 2.014

RELIGIOSIDADE E CATECISMO

IPIRANGA
RELIGIOSIDADE E CATECISMO.

- Vamos ao catecismo, me disse um amiguinho  em  certo dia de domingo de manhã  fria, num  final de inverno  e de pouco sol.
- Catecismo?  Onde irão ensinar o catecismo?
- Vai ser na rua,  será hoje à tarde na rua Oliveira Melo com o Doutor Mario Vicente. Fala com tua mãe se ela deixa você ir comigo.  Hoje haverá distribuição de balas.
Balas? E quem vai fazer a distribuição das balas? Perguntei um tanto duvidoso.
-Também não sei, mas avisaram no domingo passado que quem fosse hoje, haveria de ganhar balas.
-Quando voltei para casa,   conversei  com minha mãe dizendo que um amiguinho da vizinhança, me havia convidado para assistir uma aula de catecismo e que ia haver distribuição de balas.   Ela autorizou , mas foi logo dizendo:
- Você pode ir, é muito bom que vá e trate de aprender direitinho e tome atenção naquilo que for dito.  Mas assim que terminar,  trate logo de voltar para casa, e não fique andando de um lado para outro com os  meninos, nem indo para muito longe de casa.
-Meu pai não era muito de religião, mas minha mãe era meio beata.   Gostava de eventos religiosos, procissões, novenas. Possuía um livrinho de capa preta chamado “Devotos de São José” além de diversas imagens de santos, e tudo quanto se referia a fé católica.
Gostava de fazer novenas.  As trezenas ficavam para dia primeiro de junho até o dia treze do mesmo mês,  dia de Santo Antonio.
Durante esses treze dias,  todas as noites eram acendidas uma lamparina para o santo.   Também  era devota de Santa Teresinha do menino Jesus! Tinha  a imagem da santa em um quadro como um porta retrato, cuja imagem da santa já   um tanto desbotada pelo tempo . Esta ficava sempre em cima da mesinha de cabeceira ao lado da cama.
Se benzia fazendo o sinal da cruz, quando alguém falava alguma coisa  contra os  padres e a religião.   Comentava e reprovava esses atos dizendo que pessoas assim  incrédulas e hereges seriam castigadas por Deus.   Se  alguma pessoa estava passando por algum momento difícil,  doença, falta de dinheiro, ou lhe sobrevinha algum acidente, era devido a falta de fé, de religiosidade,  incredulidade ou castigo.  Todo esse apego e intenso exagero fora  herdado de seus pais de nacionalidade italiana que desde criança Influenciaram e introduziram não somente  nela,  mas na maioria dos filhos uma fé sem limites e de um fanatismo exagerado,  obrigando-os  sempre a  estar metidos dentro da igreja, missas, rezas, procissões e jejuns.  E a cumprirem tudo o que era determinado pela liturgia da igreja.
Minha mãe era da pequena cidade chamada Ibiúna, Estado de São Paulo,  e a maior parte das pessoas da comunidade  iam tomar conselho com o padre. Se não era com ele era com a irmã  dele, a dona Augusta, uma senhora já de meia idade.
Desde a pré-adolescência minha mãe e mais duas de suas  irmãs eram cantoras do coro da igreja dessa cidade.  Cantavam por meio de partituras musicais, e os cânticos eram todos em latim.
Aprenderam a  música com um senhor dirigente da banda musical da cidade. Esse  senhor alem  de amigo da família ,  também era sogro de uma de  suas irmãs mais velha chamada Brazilina.Chamava-se  Paulino.
Paulino era professor de música muito bem conceituado daquela pequena e  atrasada cidadezinha de interior, que naqueles tempos era apenas  comarca de uma outra cidade vizinha.
Paulino ensinou a música para minha mãe e para  outras duas de suas irmãs  sem cobrar um tostão. Porém para mostrarem gratidão, pela paciência, e dedicação daquele senhor,   prometeram que assim que completassem o curso de solfejo cantado e estivessem aptas para cantar no coral, lhes dariam como presente um terno.
O coitado do Paulino se estivesse vivo  estaria esperando o terno até hoje.    Nunca deram, ficou apenas na promessa.
Mas também  nem sei por que fizeram tal promessa se elas não tinham um gato pra puxar pelo rabo.  Ajudavam a mãe que trabalhava dia e noite fazendo doces, para venderem no pequeno e desfalcado armazém que possuíam, ou  nas festas religiosas, ou então  em  algum circo que as vezes aparecia na cidade.
Conseguiam algum dinheirinho  extra quando havia missa cantada.
Quando havia essas missas, geralmente em dias religiosos então o padre pagava dez mil reis para cada cantora do coro, e para que elas cantassem com uma voz  limpa e afinada, ele distribuía alguns bombons  com licor antes do início de qualquer missa.
Meu pai não era chegado em religião, mas não  proibia e nem se opunha de minha mãe  freqüentar procissões, que em  época da semana santa quase sempre manifestava  o desejo de ir .  Nestas ocasiões ele a  acompanhava, e era  sempre na igreja de São José  na rua Brigadeiro Jordão, no  bairro do Ipiranga.
As procissões eram a Do encontro e  do Senhor Morto.
-Quando a procissão terminava, e entravam com os andores no interior da igreja, minha mãe ficava do lado de fora ouvindo certamente o coral ou alguns daqueles cânticos religiosos, talvez recordando os tempos da juventude quando era cantora da cidade em que nascera.
Meu pai então ficava pacientemente aguardando até o momento em que ela dissesse:  vamos embora!
Bem, voltemos ao assunto do catecismo.
O local onde  eram realizados o tal catecismo, era  defronte a um casarão térreo e antigo na rua Oliveira Melo esquina com doutor Mário Vicente. O prédio ficava sobre um pequeno barranco um pouco acima do nível da rua.  Haviam grandes janelas de modelo muito antigo de madeira e vidraças que se abriam para o interior da casa. A  porta era dupla e alta e devido a falta de pintura estava  velha e  descascada pela ação do tempo.   Nesse comprido e longo casarão  funcionava uma Escola Primária.  A  professora era dona Francisca. Uma  senhora já de meia idade e morava no mesmo prédio  da escola e as aulas eram em uma das salas que dava para a rua Oliveira Melo. As crianças haviam-na apelidado de “Chica Pelanca”.
Nesse mesmo casario havia uma outra entrada pela rua Doutor Mário Vicente o qual morava uma outra senhora muito religiosa e que dava aulas de catecismo.
Naquela escola tudo era antigo. Tanto a mesa da professora, o armário, as carteiras e um relógio tipo  despertador com seus  números enormes.  Havia também uma bandeira do Brasil, em cima do armário da sala de aula.
Dona Francisca muitas vezes ia até a cozinha, talvez verificar algo que estivesse cozinhando e deixava os alunos a vontade. Então algum dos alunos ia até o enorme despertador que ficava em cima de um móvel, e, adiantava  alguns minutos que era para sairmos mais cedo. Quando dona Francisca retornava para a sala e olhava para o relógio, ficava admirada dos minutos haver se passado tão rápidos.
Daí então quando saíamos da aula, íamos até um barzinho na rua Doutor Mario Vicente comprar sorvetes tipo picolé ou em massa,  vendidos em um copinho branco que se dissolvia tão rápido que a gente  comia ele também. Os sorvetes  eram feitos ali mesmo, em uma máquina barulhenta dentro de um balcão de madeira com uma pedra de mármore branca.
Os sorvetes eram de diversos sabores: Abacaxi, coco, limão. Custavam cinquenta centavos mas também era mais gelo que outra coisa.
O barzinho existe até hoje, só que agora servem também refeições.
Calçamento e asfalto nem se pensava por aquelas bandas, e o bairro mais parecia um lugarejo interiorano.  Os automóveis como eram chamados, também dificilmente  passavam por ali.   Havia  muitos terrenos baldios, e as casas eram escassas, mas também não existia poluição.
Voltemos as aulas de catecismo:  Ficamos ansiosos  aguardando  e olhando tudo o que acontecia.
Qualquer movimento, ou alguém que chegasse, a criançada já se alvoroçava, e o assunto principal era a distribuição das balas.

Vimos  chegar muitas crianças que não conhecíamos.  Talvez de algum lugar mais distante, e alguns meninos lá nos seus treze anos de idade tagarelava o tempo todo sem parar.  Cada um procurava assentar-se no melhor lugar.  De vez em quando certas meninas trocavam de lugar, talvez para ficarem mais próximas de alguma amiga.
A tarde estava um pouco fria. Naquele tempo os garotos usavam calça curta,  e poucos tinham blusas de frio e calça comprida, muitos iam descalços e poucos calçavam sapatos com meia.  O remédio era se contentar  com aquilo  que nossos pais podiam nos dar.

Eu e meu amigo, tomamos lugar em um daqueles bancos.    Aguardávamos o início do catecismo, mas a maior expectativa era a distribuição das balas.
Meu pai nunca negou nada para os filhos e, se sabia que a gente tinha vontade de alguma coisa, à noite quando voltava do trabalho sempre trazia aquilo que pedíamos, para satisfazer nossos desejos. Se pedíamos pastel, passava em alguma pastelaria do centro, e chegava com uma bandeja recheada com pastéis de palmito e queijo.
Se era doce de confeitaria, passava pela padaria Santa Tereza na Praça João Mendes. Comprava queijadinhas, bomba, bom bocado e pão de ló.
Poderia ter pedido algum dinheirinho para meu pai e ir comprar as balas que quisesse, mas desejo de criança é complicado. Talvez as balas distribuídas tivessem outro sabor!...
Não demorou muito e o meu amiguinho  falou:
-Olhe,  está vendo aquela senhora?
-Sim, respondi.
-Então! Ela já está distribuindo as balas, veja o cartucho que ela tem nas mãos... e, olhe que está cheio,  hein?
-A mulher passava por entre os bancos, pedindo que cada criança fizesse a mão em forma de concha e, nela depositava certa quantidade da guloseimas .
Percebi que com certas crianças ela passava direto e não colocava nada em suas mãos.
Era uma mulher de estatura média, magra, e de pouca beleza.  O rosto de uma brancura acentuada,  cor de vela e o semblante sério.  Não era de muita idade, mas parecia ser.   Os dentes pareciam cerrados enquanto falava.
Trajava um vestido escuro, e uma fita preta ou vermelha da ordem religiosa a qual pertencia pendurada no pescoço. A fita descia até o peito com a medalha de algum santo. Uma verdadeira beata!
Notei que essa senhora se aproximava, e, parava na frente de cada criança para dar um punhado de balas.
Quando chegou a minha vez, notei certa frieza no rosto e no olhar daquela senhorinha.   Foi uma cena que jamais esqueci.
Parou diante de mim.Olhei no saco de balas, levantei a cabeça.
Olhei  em seu rosto: era de uma palidez profunda. Senti um certo temor, parece que alguma coisa ruim ia acontecer.
-Então ouvi uma voz grave e severa  que  disse:
-Pra você,  não!!!  Você veio  hoje ao catecismo apenas para ganhar balas.
Não pude me ver no espelho naquele momento, mas a sensação foi a de que corei de vergonha.
Então ela continuou com a distribuição por entre a meninada e eu segui aquele vulto de roupagem escura,  caminhando  por entre as crianças.Fiquei triste e decepcionado.
Deu-se início ao catecismo, e pra minha surpresa vi novamente a figura daquela senhorinha tomar a dianteira diante das crianças, para o ensino religioso.
- Começaram a cantar um hino:  “ Os anjos, todos os anjos, louvem a Deus para sempre amem.”
“Bendito, louvado seja, o santíssimo sacramento.”
-Agora vamos rezar: Padre nosso que estais nos céus...   Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores...
Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida e doçura esperança nossa salve...
Daí então vinham os ensinamentos de catequese que, devemos amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos.
Mas eu não estava prestando nenhuma atenção naquilo tudo.
Estava magoado e minha vontade era  sair de lá correndo. Não sei por que não o fiz.
Arrependido e triste,  voltei para casa decepcionado, amargurado, e arrependido por ter aceitado o convite de meu amiguinho e talvez não contei nada em casa o que havia sucedido.
Não tenho lembrança se fiquei até o final do catecismo e se meu amigo me deu alguma das balas que ganhou, mas se fosse hoje talvez não aceitaria.
Depois de um certo tempo,  descobri  que a tal senhora, morava  no mesmo casarão onde era a  escola cuja professora era dona Francisca, da qual relatei no início.
Ambas residiam ali mas as entradas de suas casas eram diferentes. A da senhorinha das balas, a entrada era do outro lado da esquina, na rua Dr. Mário Vicente.
Uns dizem que ela se chamava, Carmela, Odete, outros que chamavam-na de Candinha. Só sei que  era uma freqüentadora assídua da igreja, e  dificilmente faltava as missas.
Certas coisas que acontecem na infância, dificilmente a gente esquece, tanto as boas quanto as más.
Temos que tomar muito cuidado com aquilo que falamos ou fazemos injustamente com uma criança, porque dificilmente ela esquece, e fica gravado em sua memória para o resto da vida.

Ernani Nocciolini      -  04 de março de 2.014




terça-feira, 3 de março de 2015

GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ E REMINISCÊNCIAS DO BAIRRO DO IPIRANGA

GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ, E  REMINISCÊNCIAS DO BAIRRO DO IPIRANGA




Estudei no Grupo Escolar São José no bairro do Ipiranga no ano de 1948.

Naquela época por aquelas redondezas ainda era muito  despovoado, havendo ainda muitos terrenos baldios.  A avenida Nazaré era pavimentada apenas do lado direito sentido de quem vai para o Sacomã,  e o asfalto além de ser de má qualidade, o trecho pavimentado chegava somente até a rua Moreira de Godoy. O restante da avenida após o número 900 era somente de terra e não existiam duas pistas, era tudo uma coisa só.
Nesta mesma avenida, ficava  o ponto final do bonde 4 Ipiranga,   ao lado do Colégio Nossa Senhora da Glória, que antigamente chamava-se “Seminário das Educandas,”  próximo a rua Moreira de Godoy e o Instituto de Cegos Padre Chico. 
O bonde Ipiranga vinha do centro da cidade, tinha o ponto de partida na  praça João Mendes defronte o prédio do fórum que naquela época ainda estava em construção.(antes era na praça da Sé o ponto de partida). 
Pois bem, assim que o bonde 4 Ipiranga e também de outras linhas como 32 Vila Prudente, 23 Fabrica, 33 Sorocabanos,  saiam da praça João Mendes, os mesmos seguiam rumo ao bairro entrando  pela rua Conde do Pinhal, Rua da Glória, Largo do Cambuci, Rua Independência, Avenida Dom Pedro I, Rua Tabhor e Rua Bom Pastor. Outras linhas de bonde seguiam pela rua Sorocabanos e outras, porém o 4 Ipiranga, continuava pela rua Bom Pastor até chegar na rua  rua Moreira e Costa e entrava a direita até chegar na avenida Nazaré onde fazia a penúltima parada na  esquina, onde atualmente é o Bar do Maninho. 
  Alguns meninos que seguiam com destino as aulas, esperavam os passageiros descerem, e  subiam no estribo do bonde, para ter o prazer de seguir apenas um pequeno trecho sem pagar.  Aproveitavam a distração do cobrador que na maioria das vezes ficava de  conversa com o motorneiro. Então  pegavam uma carona até o bonde chegar no ponto final.  Mas ficavam sempre atentos com o cobrador. 
Quando viam que este se aproximava,  pulavam do veículo mesmo este estando  em movimento.  
O termo usado pela molecada daquela época era “chocar o bonde”.  Isto é, ir de carona até um determinado lugar sem pagar passagem.
Uma ocasião para acompanhar outros meninos fiz isto, e, quando o bonde estava quase chegando próximo ao Grupo Escolar, pulei do coletivo em movimento. Resultado:  Sofri  uma queda tremenda, me sujando todo de terra. Incrível que os passageiros que aguardavam a chegada do bonde, não deram nenhuma atenção quando estava caído no chão e com a mala escolar ao lado. Ninguém veio perguntar se eu estava machucado ou não! Acho que criança não tinham muita importância naquela época. 
 Felizmente não aconteceu algo pior e fatal. 
Na volta encontrei com uma menina chamada Iracema, filha de uma senhora alemã, e pai português e que eram nossos vizinhos. 
Iracema  estava a caminho do Grupo Escolar, estudava no período vespertino. Narrei tudo o que   havia me acontecido, e porque estava com o uniforme daquela maneira, todo sujo de terra.
 - Ela ficou assustada e o comentário dela até achei engraçado quando me disse: “E o bonde não passou em cima de sua cabeça”?
 Vejam que inocência, se houvesse acontecido isto não estaria contando o fato a ela!
-Para o Alto do Ipiranga existia apenas uma linha de ônibus que também vinha do centro da cidade, e passava defronte o Grupo Escolar São José.  Eram os ônibus 22 Alto do Ipiranga, pintados de uma cor alaranjada com motor na frente. Faziam o ponto final nas proximidades da Rua Vergueiro e  Santa Cruz. 

 O PRIMEIRO DIA DE AULA NO GRUPO SÃO JOSÉ.


Um dia antes de iniciarmos as aulas,   minha mãe foi me levar até o Grupo Escolar, pois ali haveria uma reunião com os pais e alunos, e haveriam de ser esclarecidos todas as regras que deviam ser seguidas durante todo ano letivo.
Quem iria dar todas as instruções, era a diretora dona Laura Prestes Barros, pois assim era o seu nome.
O local estava lotado.  A maioria eram mães de alunos. Todos aguardavam  ansiosos para ouvir o que a diretora tinha a dizer. Devido a mistura de vozes e o tagarelar alegre da criançada o barulho ia se tornando cada vez maior naquela manhã de verão que, apesar de quente, estava um tanto agradável  devido uma suave brisa  que soprava e que chegava até nós.  Muitos se protegiam do sol  embaixo das copas das enormes   árvores que existiam, e que ainda existem dentro do pátio deste prédio. 
De repente pararam os vozerios e alguém avisou que havia chegado a Diretora. Tornou-se então um grande silêncio e todos ficaram atentos para ouvirem tudo o que a diretora  havia de dizer. 
Subindo  sobre um  pedestal que estava preparado debaixo de uma  daquelas árvores frondosas, dona Laura Cumprimentou a todos com um bom dia!
O silêncio foi total e ela num curto discurso,  foi ditando  todas as normas do colégio. 
 Em suas palavras não haviam  brincadeiras e nem se quer um pequeno sorriso.  Enquanto fazia a prédica,  ditava todos os deveres com  firmeza e austeridade. 
Havia naquela época muita severidade, e uma das advertências da diretora foi que, se algum dos alunos chegasse atrasado  teria: “Portão Fechado,” e que o uso do uniforme era obrigatório tanto para meninos como para as meninas. 
Os meninos, calça azul marinho e camisa branca, as meninas avental branco sobre o vestido e fita branca no cabelo.
Quem fosse sem uniforme, não entraria em aula.

Dona Laura possuía na diretoria um sino manual  que era para anunciar os horários tanto para saída do recreio, como para anunciar o término das aulas.  

Havia também uma outra senhora que   trabalhava  na diretoria do grupo escolar. O  nome dela era dona Laís. Esta  também era muito  enérgica tanto quanto dona Laura.  Ambas não toleravam alunos rebeldes e se houvesse reclamação por parte de algum professor, o aluno era severamente castigado.
Minha professora, se chamava dona Marta, uma pessoa ainda jovem de estatura média, morena clara, muito dócil e também dedicada na maneira de ensinar seus alunos.
Dona Marta morava no Cambuci, na rua Eulália Assunção próximo da Igreja de São Joaquim, ou Nossa Senhora da Glória, mais conhecida como “Igreja do Cambuci.” 
Todos os dias quando findavam as aulas, havia  na porta do Grupo Escolar São José,  um senhor que vendia um doce que as crianças chamavam  de “Machadinha”.   -O doce tinha duas cores: Amarelo e rosa.  O amarelo  era sabor  abacaxi, e cor de rosa era sabor de morango.
A criançada chamava o doce de machadinha, devido ele ser cortado com um machadinho, mas outros  chamavam de quebra-queixo.
Hoje não vejo mais daquele doce amarelo e rosa, vejo o quebra queixo de coco  que é de uma cor marrom escura.
Esses doces eram muito baratinhos, um pedaço custava cinquenta centavos.


GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ E PRIMEIRA COMUNHÃO

Naquele mês de outubro do ano de 1948, os alunos de minha classe, e também de outras classes, fizeram a primeira comunhão em uma  igrejinha na rua Moreira de Godoy, e que faz parte do Instituto de Cegos Padre Chico. Mas as instruções de catecismo foram com uma professora de catequese ali do Grupo Escolar São José.
No dia da primeira comunhão a criançada estava em jejum total, e, após a missa, foi preparado uma mesa com bolos, e chocolatada ali no Seminário de Educandas. Hoje é Escola Estadual Nossa Senhora da Glória. 
Hoje já não há necessidade de jejum para se  comungar, foi abolido há muito tempo pela igreja católica.
Me lembro que cada aluno levou uma xícara de casa para tomar o chocolate. Até hoje não sei dizer o porque mandaram-nos  levar a xícara de casa. Talvez ali  no colégio não possuíssem xícaras suficientes para todos.  Levei uma linda xícara de porcelana que paguei bem cara, mas guardei por muito tempo.  Comprei a tal xícara,  no armazém do seu Moraes (assim era chamado), na rua Gomes Nogueira. 
Hoje  este armazém  de secos e molhados  não existe mais. O prédio foi totalmente reformado e no local agora é uma padaria.” A padaria Santa Cândida.”

Quanto ao antigo prédio de número 900 da Av. Nazaré, e que outrora pertenceu ao Grupo Escolar São José, até poucos anos funcionou a Faculdade São Marcos. Hoje não funciona mais.

Passei por lá estes dias e vi uma placa de VENDA ou ALUGA. (Não sei se é tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo, mas se não é, deveria ser).
O governo do Estado deveria comprar o prédio, cujo  construtor foi Ramos de Azevedo e a arquitetura é muito linda e não se vê mais construções tão bonitas assim nos dias atuais. 
Obs. Felizmente o prédio foi reformado e soube que atualmente está novamente funcionando como escola. 
Ernani Nocciolini, Ipiranga São Paulo, l2 de abril de 2.025