domingo, 31 de maio de 2015
segunda-feira, 9 de março de 2015
RUA DIREITA DOIS MIL E QUATORZE
Rua Direita: gente que vem, gente que vai,
gente que vê as vitrines.
Mas quem é aquela mulher que está defronte a
loja que toca o forró?
O som é alto, dói os tímpanos de quem ouve e
passa mesmo ao longe!
Onde está a fiscalização e as leis do
município que não observam isto?
A mulher dança ... dança
... sozinha! se gesticula toda, parece até que está possuída.
Sacoleja o corpo, se retorce e gira. Agora parece um parafuso,
a pintura é exagerada. Moça feia.
A boca se abre, fecha. Abre novamente a boca de uma
maneira exagerada parecendo um marionete. Agora não fecha mais.
Engano meu, fechou. Coloca uma das mão na barriga, se abaixa
devagarzinho; vai dançar o frevo, pensei.
Largou os sapatos na calçada. Com os pés descalços
ajudam mais ela se requebrar. Agora com o ritmo acelerado do forró, ela
se retorce cada vez mais. Parece uma salamandra jogada no fogo.
Está transtornada, entusiasmada no ritmo da
dança nem pisca os olhos e parece não ver aqueles que passam e estão ao seu
redor.
Parei um pouco, fiquei observando os movimentos.
Parece de borracha disse no pensamento. Não agüentei o barulho e o
rodopiar da mulher. Vou ter uma crise de labirintite raciocinei novamente.
Boca pintada exageradamente, cabelos desgrenhados,short
minúsculo.
Fui à perfumaria O Boticário. Voltei e
a mulher continua dançando e se gesticulando no mesmo frenesi. Agora parece que
rebola, com mais intensidade. Continua sempre com uma das mãos na barriga, e
parecendo querer dar um grito, faz uma massagem num movimento sensual.
Passa um homem e diz: põe ela no fogão! Será
que sabe cozinhar?
Diz o outro homem: dá um tanque cheio de roupas
sujas pra ela lavar... garanto que não sabe!
Entro na Sé, já saindo da rua direita, noto que o mesmo pregador do evangelho que
estava na minha ida, ainda está no mesmo local.
Continua com a mesma pregação do evangelho. Anuncia
a todos que passam o fim do mundo e todas as ameaças do apocalipse.
Usa um aparelhinho a pilha no microfone para não
cansar a voz!
Um imitador de Luiz Gonzaga também continua a
resfolegar sua sanfona e no som da Asa Branca, procura angariar alguns
trocados das pessoas que o rodeiam.
Geralmente os apreciadores são conterrâneos e
saudosistas do Gonzagão!
Um maluco morador de rua, deitado embaixo da
estátua do Padre José de Anchieta, aponta com o dedo indicador algo que somente
ele vê. Abre a boca, não sei se de fome ou de sono. Aponta com o dedo
novamente. Fala certas palavras que não dá pra se entender. Acho
que somente ele sabe e enxerga com quem está falando.
Caminho mais à frente, Mais um pregador tentando
fazer as pessoas que o rodeiam entender a parábola que Jesus falou sobre
a videira.
Gritava em voz alta e empenhava-se de corpo e
alma fazer àqueles que o ouviam entender o evangelho e a Parábola
da videira e o lavrador.
Atravesso a praça em direção ao metrô.
Desço as escadas rolantes. Uma mulher me olha.
Digo a ela: A praça da Sé dá um livro de páginas
intermináveis!
Ela confirma com um gesto que sim.
Ernani Nocciolini
SP. 25 março/2.014
OBSERVAÇÃO: A foto postada é de Ernestina Salerno e o filho Reinaldo Barelli
Não tem nada haver com o conto Rua Direita 2.014
RELIGIOSIDADE E CATECISMO
IPIRANGA
RELIGIOSIDADE E CATECISMO.
- Vamos ao catecismo, me disse um
amiguinho em certo dia de domingo de manhã fria, num
final de inverno e de pouco sol.
- Catecismo? Onde irão ensinar o catecismo?
- Vai ser na rua, será hoje à tarde na rua Oliveira Melo com o
Doutor Mario Vicente. Fala com tua mãe se ela deixa você ir comigo. Hoje haverá distribuição de balas.
Balas? E quem vai fazer a
distribuição das balas? Perguntei um tanto duvidoso.
-Também não sei, mas avisaram no
domingo passado que quem fosse hoje, haveria de ganhar balas.
-Quando voltei para casa, conversei
com minha mãe dizendo que um amiguinho
da vizinhança, me havia convidado para assistir uma aula de catecismo e que ia
haver distribuição de balas. Ela
autorizou , mas foi logo dizendo:
- Você pode ir, é muito bom que vá e
trate de aprender direitinho e tome atenção naquilo que for dito. Mas assim que terminar, trate logo de voltar para casa, e não fique
andando de um lado para outro com os meninos, nem indo para muito longe de casa.
-Meu pai não era muito de religião,
mas minha mãe era meio beata. Gostava
de eventos religiosos, procissões, novenas. Possuía um livrinho de capa preta
chamado “Devotos de São José” além de diversas imagens de santos, e tudo quanto
se referia a fé católica.
Gostava de fazer novenas. As trezenas ficavam para dia primeiro de
junho até o dia treze do mesmo mês, dia
de Santo Antonio.
Durante esses treze dias, todas as noites eram acendidas uma lamparina
para o santo. Também era devota de Santa Teresinha do menino Jesus!
Tinha a imagem da santa em um quadro
como um porta retrato, cuja imagem da santa já um
tanto desbotada pelo tempo . Esta ficava sempre em cima da mesinha de cabeceira
ao lado da cama.
Se benzia fazendo o sinal da cruz,
quando alguém falava alguma coisa contra
os padres e a religião. Comentava e reprovava esses atos dizendo que
pessoas assim incrédulas e hereges seriam
castigadas por Deus. Se alguma pessoa estava passando por algum momento
difícil, doença, falta de dinheiro, ou
lhe sobrevinha algum acidente, era devido a falta de fé, de religiosidade, incredulidade ou castigo. Todo esse apego e intenso exagero fora herdado de seus pais de nacionalidade italiana
que desde criança Influenciaram e introduziram não somente nela, mas na maioria dos filhos uma fé sem limites e
de um fanatismo exagerado, obrigando-os
sempre a estar metidos dentro da
igreja, missas, rezas, procissões e jejuns.
E a cumprirem tudo o que era determinado pela liturgia da igreja.
Minha mãe era da pequena cidade chamada
Ibiúna, Estado de São Paulo, e a maior parte
das pessoas da comunidade iam tomar
conselho com o padre. Se não era com ele era com a irmã dele, a dona Augusta, uma senhora já de meia idade.
Desde a pré-adolescência minha mãe e
mais duas de suas irmãs eram cantoras do
coro da igreja dessa cidade. Cantavam
por meio de partituras musicais, e os cânticos eram todos em latim.
Aprenderam a música com um senhor dirigente da banda
musical da cidade. Esse senhor alem de amigo da família , também era sogro de uma de suas irmãs mais velha chamada Brazilina.Chamava-se Paulino.
Paulino era professor de música
muito bem conceituado daquela pequena e atrasada cidadezinha de interior, que naqueles
tempos era apenas comarca de uma outra
cidade vizinha.
Paulino ensinou a música para minha
mãe e para outras duas de suas irmãs sem cobrar um tostão. Porém para mostrarem
gratidão, pela paciência, e dedicação daquele senhor, prometeram que assim que completassem o curso
de solfejo cantado e estivessem aptas para cantar no coral, lhes dariam como
presente um terno.
O coitado do Paulino se estivesse
vivo estaria esperando o terno até hoje. Nunca deram, ficou apenas na promessa.
Mas também nem sei por que fizeram tal promessa se elas
não tinham um gato pra puxar pelo rabo.
Ajudavam a mãe que trabalhava dia e noite fazendo doces, para venderem
no pequeno e desfalcado armazém que possuíam, ou nas festas religiosas, ou então em algum circo que as vezes aparecia na cidade.
Conseguiam algum dinheirinho extra quando havia missa cantada.
Quando havia essas missas,
geralmente em dias religiosos então o padre pagava dez mil reis para cada cantora
do coro, e para que elas cantassem com uma voz
limpa e afinada, ele distribuía alguns bombons com licor antes do início de qualquer missa.
Meu pai não era chegado em religião,
mas não proibia e nem se opunha de minha
mãe freqüentar procissões, que em época da semana santa quase sempre manifestava
o desejo de ir . Nestas ocasiões ele a acompanhava, e era sempre na igreja de São José na rua Brigadeiro Jordão, no bairro do Ipiranga.
As procissões eram a Do encontro e do Senhor Morto.
-Quando a procissão terminava, e
entravam com os andores no interior da igreja, minha mãe ficava do lado de fora
ouvindo certamente o coral ou alguns daqueles cânticos religiosos, talvez recordando
os tempos da juventude quando era cantora da cidade em que nascera.
Meu pai então ficava pacientemente
aguardando até o momento em que ela dissesse:
vamos embora!
Bem, voltemos ao assunto do
catecismo.
O local onde eram realizados o tal catecismo, era defronte a um casarão térreo e antigo na rua
Oliveira Melo esquina com doutor Mário Vicente. O prédio ficava sobre um
pequeno barranco um pouco acima do nível da rua. Haviam grandes janelas de modelo muito antigo
de madeira e vidraças que se abriam para o interior da casa. A porta era dupla e alta e devido a falta de
pintura estava velha e descascada pela ação do tempo. Nesse
comprido e longo casarão funcionava uma
Escola Primária. A professora era dona Francisca. Uma senhora já de meia idade e morava no mesmo
prédio da escola e as aulas eram em uma
das salas que dava para a rua Oliveira Melo. As crianças haviam-na apelidado de
“Chica Pelanca”.
Nesse mesmo casario havia uma outra
entrada pela rua Doutor Mário Vicente o qual morava uma outra senhora muito
religiosa e que dava aulas de catecismo.
Naquela escola tudo era antigo. Tanto
a mesa da professora, o armário, as carteiras e um relógio tipo despertador com seus números enormes. Havia também uma bandeira do Brasil, em cima
do armário da sala de aula.
Dona Francisca muitas vezes ia até a
cozinha, talvez verificar algo que estivesse cozinhando e deixava os alunos a
vontade. Então algum dos alunos ia até o enorme despertador que ficava em cima
de um móvel, e, adiantava alguns minutos
que era para sairmos mais cedo. Quando dona Francisca retornava para a sala e
olhava para o relógio, ficava admirada dos minutos haver se passado tão
rápidos.
Daí então quando saíamos da aula,
íamos até um barzinho na rua Doutor Mario Vicente comprar sorvetes tipo picolé
ou em massa, vendidos em um copinho
branco que se dissolvia tão rápido que a gente comia ele também. Os sorvetes eram feitos ali mesmo, em uma máquina
barulhenta dentro de um balcão de madeira com uma pedra de mármore branca.
Os sorvetes eram de diversos
sabores: Abacaxi, coco, limão. Custavam cinquenta centavos mas também era mais
gelo que outra coisa.
O barzinho existe até hoje, só que
agora servem também refeições.
Calçamento e asfalto nem se pensava
por aquelas bandas, e o bairro mais parecia um lugarejo interiorano. Os automóveis como eram chamados, também
dificilmente passavam por ali. Havia muitos terrenos baldios, e as casas eram
escassas, mas também não existia poluição.
Voltemos as aulas de catecismo: Ficamos ansiosos aguardando e olhando tudo o que acontecia.
Qualquer movimento, ou alguém que
chegasse, a criançada já se alvoroçava, e o assunto principal era a
distribuição das balas.
Vimos chegar muitas crianças que não conhecíamos. Talvez de algum lugar mais distante, e alguns
meninos lá nos seus treze anos de idade tagarelava o tempo todo sem parar. Cada um procurava assentar-se no melhor
lugar. De vez em quando certas meninas
trocavam de lugar, talvez para ficarem mais próximas de alguma amiga.
A tarde estava um pouco fria.
Naquele tempo os garotos usavam calça curta,
e poucos tinham blusas de frio e calça comprida, muitos iam descalços e
poucos calçavam sapatos com meia. O
remédio era se contentar com aquilo que nossos pais podiam nos dar.
Eu e meu amigo, tomamos lugar em um
daqueles bancos. Aguardávamos
o início do catecismo, mas a maior expectativa era a distribuição das balas.
Meu pai nunca negou nada para os
filhos e, se sabia que a gente tinha vontade de alguma coisa, à noite quando
voltava do trabalho sempre trazia aquilo que pedíamos, para satisfazer nossos
desejos. Se pedíamos pastel, passava em alguma pastelaria do centro, e chegava
com uma bandeja recheada com pastéis de palmito e queijo.
Se era doce de confeitaria, passava
pela padaria Santa Tereza na Praça João Mendes. Comprava queijadinhas, bomba,
bom bocado e pão de ló.
Poderia ter pedido algum dinheirinho
para meu pai e ir comprar as balas que quisesse, mas desejo de criança é
complicado. Talvez as balas distribuídas tivessem outro sabor!...
Não demorou muito e o meu amiguinho falou:
-Olhe, está vendo aquela senhora?
-Sim, respondi.
-Então! Ela já está distribuindo as
balas, veja o cartucho que ela tem nas mãos... e, olhe que está cheio, hein?
-A mulher passava por entre os
bancos, pedindo que cada criança fizesse a mão em forma de concha e, nela
depositava certa quantidade da guloseimas .
Percebi que com certas crianças ela
passava direto e não colocava nada em suas mãos.
Era uma mulher de estatura média,
magra, e de pouca beleza. O rosto de uma
brancura acentuada, cor de vela e o
semblante sério. Não era de muita idade,
mas parecia ser. Os dentes pareciam
cerrados enquanto falava.
Trajava um vestido escuro, e uma
fita preta ou vermelha da ordem religiosa a qual pertencia pendurada no pescoço.
A fita descia até o peito com a medalha de algum santo. Uma verdadeira beata!
Notei que essa senhora se
aproximava, e, parava na frente de cada criança para dar um punhado de balas.
Quando chegou a minha vez, notei
certa frieza no rosto e no olhar daquela senhorinha. Foi uma cena que jamais esqueci.
Parou diante de mim.Olhei no saco de
balas, levantei a cabeça.
Olhei em seu rosto: era de uma palidez profunda. Senti
um certo temor, parece que alguma coisa ruim ia acontecer.
-Então ouvi uma voz grave e
severa que disse:
-Pra você, não!!!
Você veio hoje ao catecismo
apenas para ganhar balas.
Não pude me ver no espelho naquele
momento, mas a sensação foi a de que corei de vergonha.
Então ela continuou com a
distribuição por entre a meninada e eu segui aquele vulto de roupagem escura, caminhando por entre as crianças.Fiquei triste e
decepcionado.
Deu-se início ao catecismo, e pra
minha surpresa vi novamente a figura daquela senhorinha tomar a dianteira
diante das crianças, para o ensino religioso.
- Começaram a cantar um hino: “ Os anjos, todos os anjos, louvem a Deus
para sempre amem.”
“Bendito, louvado seja, o santíssimo
sacramento.”
-Agora vamos rezar: Padre nosso que
estais nos céus... Santa Maria mãe de
Deus rogai por nós pecadores...
Salve Rainha, mãe de misericórdia,
vida e doçura esperança nossa salve...
Daí então vinham os ensinamentos de
catequese que, devemos amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós
mesmos.
Mas eu não estava prestando nenhuma
atenção naquilo tudo.
Estava magoado e minha vontade
era sair de lá correndo. Não sei por que
não o fiz.
Arrependido e triste, voltei para casa decepcionado, amargurado, e
arrependido por ter aceitado o convite de meu amiguinho e talvez não contei
nada em casa o que havia sucedido.
Não tenho lembrança se fiquei até o
final do catecismo e se meu amigo me deu alguma das balas que ganhou, mas se
fosse hoje talvez não aceitaria.
Depois de um certo tempo, descobri
que a tal senhora, morava no
mesmo casarão onde era a escola cuja
professora era dona Francisca, da qual relatei no início.
Ambas residiam ali mas as entradas
de suas casas eram diferentes. A da senhorinha das balas, a entrada era do
outro lado da esquina, na rua Dr. Mário Vicente.
Uns dizem que ela se chamava,
Carmela, Odete, outros que chamavam-na de Candinha. Só sei que era uma freqüentadora assídua da igreja,
e dificilmente faltava as missas.
Certas coisas que acontecem na
infância, dificilmente a gente esquece, tanto as boas quanto as más.
Temos que tomar muito cuidado com
aquilo que falamos ou fazemos injustamente com uma criança, porque dificilmente
ela esquece, e fica gravado em sua memória para o resto da vida.
Ernani Nocciolini -
04 de março de 2.014
terça-feira, 3 de março de 2015
GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ E REMINISCÊNCIAS DO BAIRRO DO IPIRANGA
GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ, E REMINISCÊNCIAS DO BAIRRO DO IPIRANGA
Estudei no Grupo Escolar São José no bairro do Ipiranga no ano de 1948.
Naquela época por aquelas redondezas ainda era muito despovoado, havendo ainda muitos terrenos baldios. A avenida Nazaré era pavimentada apenas do lado direito sentido de quem vai para o Sacomã, e o asfalto além de ser de má qualidade, o trecho pavimentado chegava somente até a rua Moreira de Godoy. O restante da avenida após o número 900 era somente de terra e não existiam duas pistas, era tudo uma coisa só.
Nesta mesma avenida, ficava o ponto final do bonde 4 Ipiranga, ao lado do Colégio Nossa Senhora da Glória, que antigamente chamava-se “Seminário das Educandas,” próximo a rua Moreira de Godoy e o Instituto de Cegos Padre Chico.
O bonde Ipiranga vinha do centro da cidade, tinha o ponto de partida na praça João Mendes defronte o prédio do fórum que naquela época ainda estava em construção.(antes era na praça da Sé o ponto de partida).
Pois bem, assim que o bonde 4 Ipiranga e também de outras linhas como 32 Vila Prudente, 23 Fabrica, 33 Sorocabanos, saiam da praça João Mendes, os mesmos seguiam rumo ao bairro entrando pela rua Conde do Pinhal, Rua da Glória, Largo do Cambuci, Rua Independência, Avenida Dom Pedro I, Rua Tabhor e Rua Bom Pastor. Outras linhas de bonde seguiam pela rua Sorocabanos e outras, porém o 4 Ipiranga, continuava pela rua Bom Pastor até chegar na rua rua Moreira e Costa e entrava a direita até chegar na avenida Nazaré onde fazia a penúltima parada na esquina, onde atualmente é o Bar do Maninho.
Alguns meninos que seguiam com destino as aulas, esperavam os passageiros descerem, e subiam no estribo do bonde, para ter o prazer de seguir apenas um pequeno trecho sem pagar. Aproveitavam a distração do cobrador que na maioria das vezes ficava de conversa com o motorneiro. Então pegavam uma carona até o bonde chegar no ponto final. Mas ficavam sempre atentos com o cobrador.
Quando viam que este se aproximava, pulavam do veículo mesmo este estando em movimento.
O termo usado pela molecada daquela época era “chocar o bonde”. Isto é, ir de carona até um determinado lugar sem pagar passagem.
Uma ocasião para acompanhar outros meninos fiz isto, e, quando o bonde estava quase chegando próximo ao Grupo Escolar, pulei do coletivo em movimento. Resultado: Sofri uma queda tremenda, me sujando todo de terra. Incrível que os passageiros que aguardavam a chegada do bonde, não deram nenhuma atenção quando estava caído no chão e com a mala escolar ao lado. Ninguém veio perguntar se eu estava machucado ou não! Acho que criança não tinham muita importância naquela época.
Felizmente não aconteceu algo pior e fatal.
Na volta encontrei com uma menina chamada Iracema, filha de uma senhora alemã, e pai português e que eram nossos vizinhos.
Iracema estava a caminho do Grupo Escolar, estudava no período vespertino. Narrei tudo o que havia me acontecido, e porque estava com o uniforme daquela maneira, todo sujo de terra.
- Ela ficou assustada e o comentário dela até achei engraçado quando me disse: “E o bonde não passou em cima de sua cabeça”?
Vejam que inocência, se houvesse acontecido isto não estaria contando o fato a ela!
-Para o Alto do Ipiranga existia apenas uma linha de ônibus que também vinha do centro da cidade, e passava defronte o Grupo Escolar São José. Eram os ônibus 22 Alto do Ipiranga, pintados de uma cor alaranjada com motor na frente. Faziam o ponto final nas proximidades da Rua Vergueiro e Santa Cruz.
O PRIMEIRO DIA DE AULA NO GRUPO SÃO JOSÉ.
Um dia antes de iniciarmos as aulas, minha mãe foi me levar até o Grupo Escolar, pois ali haveria uma reunião com os pais e alunos, e haveriam de ser esclarecidos todas as regras que deviam ser seguidas durante todo ano letivo.
Quem iria dar todas as instruções, era a diretora dona Laura Prestes Barros, pois assim era o seu nome.
O local estava lotado. A maioria eram mães de alunos. Todos aguardavam ansiosos para ouvir o que a diretora tinha a dizer. Devido a mistura de vozes e o tagarelar alegre da criançada o barulho ia se tornando cada vez maior naquela manhã de verão que, apesar de quente, estava um tanto agradável devido uma suave brisa que soprava e que chegava até nós. Muitos se protegiam do sol embaixo das copas das enormes árvores que existiam, e que ainda existem dentro do pátio deste prédio.
De repente pararam os vozerios e alguém avisou que havia chegado a Diretora. Tornou-se então um grande silêncio e todos ficaram atentos para ouvirem tudo o que a diretora havia de dizer.
Subindo sobre um pedestal que estava preparado debaixo de uma daquelas árvores frondosas, dona Laura Cumprimentou a todos com um bom dia!
O silêncio foi total e ela num curto discurso, foi ditando todas as normas do colégio.
Em suas palavras não haviam brincadeiras e nem se quer um pequeno sorriso. Enquanto fazia a prédica, ditava todos os deveres com firmeza e austeridade.
Havia naquela época muita severidade, e uma das advertências da diretora foi que, se algum dos alunos chegasse atrasado teria: “Portão Fechado,” e que o uso do uniforme era obrigatório tanto para meninos como para as meninas.
Os meninos, calça azul marinho e camisa branca, as meninas avental branco sobre o vestido e fita branca no cabelo.
Quem fosse sem uniforme, não entraria em aula.
Dona Laura possuía na diretoria um sino manual que era para anunciar os horários tanto para saída do recreio, como para anunciar o término das aulas.
Havia também uma outra senhora que trabalhava na diretoria do grupo escolar. O nome dela era dona Laís. Esta também era muito enérgica tanto quanto dona Laura. Ambas não toleravam alunos rebeldes e se houvesse reclamação por parte de algum professor, o aluno era severamente castigado.
Minha professora, se chamava dona Marta, uma pessoa ainda jovem de estatura média, morena clara, muito dócil e também dedicada na maneira de ensinar seus alunos.
Dona Marta morava no Cambuci, na rua Eulália Assunção próximo da Igreja de São Joaquim, ou Nossa Senhora da Glória, mais conhecida como “Igreja do Cambuci.”
Todos os dias quando findavam as aulas, havia na porta do Grupo Escolar São José, um senhor que vendia um doce que as crianças chamavam de “Machadinha”. -O doce tinha duas cores: Amarelo e rosa. O amarelo era sabor abacaxi, e cor de rosa era sabor de morango.
A criançada chamava o doce de machadinha, devido ele ser cortado com um machadinho, mas outros chamavam de quebra-queixo.
Hoje não vejo mais daquele doce amarelo e rosa, vejo o quebra queixo de coco que é de uma cor marrom escura.
Esses doces eram muito baratinhos, um pedaço custava cinquenta centavos.
GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ E PRIMEIRA COMUNHÃO
Naquele mês de outubro do ano de 1948, os alunos de minha classe, e também de outras classes, fizeram a primeira comunhão em uma igrejinha na rua Moreira de Godoy, e que faz parte do Instituto de Cegos Padre Chico. Mas as instruções de catecismo foram com uma professora de catequese ali do Grupo Escolar São José.
No dia da primeira comunhão a criançada estava em jejum total, e, após a missa, foi preparado uma mesa com bolos, e chocolatada ali no Seminário de Educandas. Hoje é Escola Estadual Nossa Senhora da Glória.
Hoje já não há necessidade de jejum para se comungar, foi abolido há muito tempo pela igreja católica.
Me lembro que cada aluno levou uma xícara de casa para tomar o chocolate. Até hoje não sei dizer o porque mandaram-nos levar a xícara de casa. Talvez ali no colégio não possuíssem xícaras suficientes para todos. Levei uma linda xícara de porcelana que paguei bem cara, mas guardei por muito tempo. Comprei a tal xícara, no armazém do seu Moraes (assim era chamado), na rua Gomes Nogueira.
Hoje este armazém de secos e molhados não existe mais. O prédio foi totalmente reformado e no local agora é uma padaria.” A padaria Santa Cândida.”
Quanto ao antigo prédio de número 900 da Av. Nazaré, e que outrora pertenceu ao Grupo Escolar São José, até poucos anos funcionou a Faculdade São Marcos. Hoje não funciona mais.
Passei por lá estes dias e vi uma placa de VENDA ou ALUGA. (Não sei se é tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo, mas se não é, deveria ser).
O governo do Estado deveria comprar o prédio, cujo construtor foi Ramos de Azevedo e a arquitetura é muito linda e não se vê mais construções tão bonitas assim nos dias atuais.
Estudei no Grupo Escolar São José no bairro do Ipiranga no ano de 1948.
Naquela época por aquelas redondezas ainda era muito despovoado, havendo ainda muitos terrenos baldios. A avenida Nazaré era pavimentada apenas do lado direito sentido de quem vai para o Sacomã, e o asfalto além de ser de má qualidade, o trecho pavimentado chegava somente até a rua Moreira de Godoy. O restante da avenida após o número 900 era somente de terra e não existiam duas pistas, era tudo uma coisa só.
Nesta mesma avenida, ficava o ponto final do bonde 4 Ipiranga, ao lado do Colégio Nossa Senhora da Glória, que antigamente chamava-se “Seminário das Educandas,” próximo a rua Moreira de Godoy e o Instituto de Cegos Padre Chico.
O bonde Ipiranga vinha do centro da cidade, tinha o ponto de partida na praça João Mendes defronte o prédio do fórum que naquela época ainda estava em construção.(antes era na praça da Sé o ponto de partida).
Pois bem, assim que o bonde 4 Ipiranga e também de outras linhas como 32 Vila Prudente, 23 Fabrica, 33 Sorocabanos, saiam da praça João Mendes, os mesmos seguiam rumo ao bairro entrando pela rua Conde do Pinhal, Rua da Glória, Largo do Cambuci, Rua Independência, Avenida Dom Pedro I, Rua Tabhor e Rua Bom Pastor. Outras linhas de bonde seguiam pela rua Sorocabanos e outras, porém o 4 Ipiranga, continuava pela rua Bom Pastor até chegar na rua rua Moreira e Costa e entrava a direita até chegar na avenida Nazaré onde fazia a penúltima parada na esquina, onde atualmente é o Bar do Maninho.
Alguns meninos que seguiam com destino as aulas, esperavam os passageiros descerem, e subiam no estribo do bonde, para ter o prazer de seguir apenas um pequeno trecho sem pagar. Aproveitavam a distração do cobrador que na maioria das vezes ficava de conversa com o motorneiro. Então pegavam uma carona até o bonde chegar no ponto final. Mas ficavam sempre atentos com o cobrador.
Quando viam que este se aproximava, pulavam do veículo mesmo este estando em movimento.
O termo usado pela molecada daquela época era “chocar o bonde”. Isto é, ir de carona até um determinado lugar sem pagar passagem.
Uma ocasião para acompanhar outros meninos fiz isto, e, quando o bonde estava quase chegando próximo ao Grupo Escolar, pulei do coletivo em movimento. Resultado: Sofri uma queda tremenda, me sujando todo de terra. Incrível que os passageiros que aguardavam a chegada do bonde, não deram nenhuma atenção quando estava caído no chão e com a mala escolar ao lado. Ninguém veio perguntar se eu estava machucado ou não! Acho que criança não tinham muita importância naquela época.
Felizmente não aconteceu algo pior e fatal.
Na volta encontrei com uma menina chamada Iracema, filha de uma senhora alemã, e pai português e que eram nossos vizinhos.
Iracema estava a caminho do Grupo Escolar, estudava no período vespertino. Narrei tudo o que havia me acontecido, e porque estava com o uniforme daquela maneira, todo sujo de terra.
- Ela ficou assustada e o comentário dela até achei engraçado quando me disse: “E o bonde não passou em cima de sua cabeça”?
Vejam que inocência, se houvesse acontecido isto não estaria contando o fato a ela!
-Para o Alto do Ipiranga existia apenas uma linha de ônibus que também vinha do centro da cidade, e passava defronte o Grupo Escolar São José. Eram os ônibus 22 Alto do Ipiranga, pintados de uma cor alaranjada com motor na frente. Faziam o ponto final nas proximidades da Rua Vergueiro e Santa Cruz.
O PRIMEIRO DIA DE AULA NO GRUPO SÃO JOSÉ.
Um dia antes de iniciarmos as aulas, minha mãe foi me levar até o Grupo Escolar, pois ali haveria uma reunião com os pais e alunos, e haveriam de ser esclarecidos todas as regras que deviam ser seguidas durante todo ano letivo.
Quem iria dar todas as instruções, era a diretora dona Laura Prestes Barros, pois assim era o seu nome.
O local estava lotado. A maioria eram mães de alunos. Todos aguardavam ansiosos para ouvir o que a diretora tinha a dizer. Devido a mistura de vozes e o tagarelar alegre da criançada o barulho ia se tornando cada vez maior naquela manhã de verão que, apesar de quente, estava um tanto agradável devido uma suave brisa que soprava e que chegava até nós. Muitos se protegiam do sol embaixo das copas das enormes árvores que existiam, e que ainda existem dentro do pátio deste prédio.
De repente pararam os vozerios e alguém avisou que havia chegado a Diretora. Tornou-se então um grande silêncio e todos ficaram atentos para ouvirem tudo o que a diretora havia de dizer.
Subindo sobre um pedestal que estava preparado debaixo de uma daquelas árvores frondosas, dona Laura Cumprimentou a todos com um bom dia!
O silêncio foi total e ela num curto discurso, foi ditando todas as normas do colégio.
Em suas palavras não haviam brincadeiras e nem se quer um pequeno sorriso. Enquanto fazia a prédica, ditava todos os deveres com firmeza e austeridade.
Havia naquela época muita severidade, e uma das advertências da diretora foi que, se algum dos alunos chegasse atrasado teria: “Portão Fechado,” e que o uso do uniforme era obrigatório tanto para meninos como para as meninas.
Os meninos, calça azul marinho e camisa branca, as meninas avental branco sobre o vestido e fita branca no cabelo.
Quem fosse sem uniforme, não entraria em aula.
Dona Laura possuía na diretoria um sino manual que era para anunciar os horários tanto para saída do recreio, como para anunciar o término das aulas.
Havia também uma outra senhora que trabalhava na diretoria do grupo escolar. O nome dela era dona Laís. Esta também era muito enérgica tanto quanto dona Laura. Ambas não toleravam alunos rebeldes e se houvesse reclamação por parte de algum professor, o aluno era severamente castigado.
Minha professora, se chamava dona Marta, uma pessoa ainda jovem de estatura média, morena clara, muito dócil e também dedicada na maneira de ensinar seus alunos.
Dona Marta morava no Cambuci, na rua Eulália Assunção próximo da Igreja de São Joaquim, ou Nossa Senhora da Glória, mais conhecida como “Igreja do Cambuci.”
Todos os dias quando findavam as aulas, havia na porta do Grupo Escolar São José, um senhor que vendia um doce que as crianças chamavam de “Machadinha”. -O doce tinha duas cores: Amarelo e rosa. O amarelo era sabor abacaxi, e cor de rosa era sabor de morango.
A criançada chamava o doce de machadinha, devido ele ser cortado com um machadinho, mas outros chamavam de quebra-queixo.
Hoje não vejo mais daquele doce amarelo e rosa, vejo o quebra queixo de coco que é de uma cor marrom escura.
Esses doces eram muito baratinhos, um pedaço custava cinquenta centavos.
GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ E PRIMEIRA COMUNHÃO
Naquele mês de outubro do ano de 1948, os alunos de minha classe, e também de outras classes, fizeram a primeira comunhão em uma igrejinha na rua Moreira de Godoy, e que faz parte do Instituto de Cegos Padre Chico. Mas as instruções de catecismo foram com uma professora de catequese ali do Grupo Escolar São José.
No dia da primeira comunhão a criançada estava em jejum total, e, após a missa, foi preparado uma mesa com bolos, e chocolatada ali no Seminário de Educandas. Hoje é Escola Estadual Nossa Senhora da Glória.
Hoje já não há necessidade de jejum para se comungar, foi abolido há muito tempo pela igreja católica.
Me lembro que cada aluno levou uma xícara de casa para tomar o chocolate. Até hoje não sei dizer o porque mandaram-nos levar a xícara de casa. Talvez ali no colégio não possuíssem xícaras suficientes para todos. Levei uma linda xícara de porcelana que paguei bem cara, mas guardei por muito tempo. Comprei a tal xícara, no armazém do seu Moraes (assim era chamado), na rua Gomes Nogueira.
Hoje este armazém de secos e molhados não existe mais. O prédio foi totalmente reformado e no local agora é uma padaria.” A padaria Santa Cândida.”
Quanto ao antigo prédio de número 900 da Av. Nazaré, e que outrora pertenceu ao Grupo Escolar São José, até poucos anos funcionou a Faculdade São Marcos. Hoje não funciona mais.
Passei por lá estes dias e vi uma placa de VENDA ou ALUGA. (Não sei se é tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo, mas se não é, deveria ser).
O governo do Estado deveria comprar o prédio, cujo construtor foi Ramos de Azevedo e a arquitetura é muito linda e não se vê mais construções tão bonitas assim nos dias atuais.
Obs. Felizmente o prédio foi reformado e soube que atualmente está novamente funcionando como escola.
Ernani Nocciolini, Ipiranga São Paulo, l2 de abril de 2.025
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