ORFANATO CRISTOVÃO
COLOMBO
- Ainda guardo na memória, e se não estou errado,
estávamos no mês de Março do ano de 1.949, e uma de minhas tias, a mais velha
das irmãs de minha mãe, foi comigo até o colégio Cristovão Colombo para averiguar as possibilidades de me matricular
no terceiro ano do curso primário.
- Após algumas averiguações e perguntas sobre as mensalidades, normas,
horários e regras do colégio que era extremamente católico, tomamos o caminho
de volta para casa.
- Saímos em uma das alamedas interna do colégio que
apesar de ser de chão batido, era maravilhosa devido a abundante vegetação e jardins floridos. O sol
de verão era ardente e avistava-mos os pássaros alegres cantarolando com
alegria, na imensidão de arvores frutíferas, e pareciam tão felizes e saudando aquela tarde tão linda e de um céu
muito azulado.
- Defronte o velho prédio e capela do primitivo
colégio, havia um belo e imenso jardim
florido e uma grande horta com plantações de vários tipos de legumes e
hortaliças. Ao longe ouvia-se o mugido
das vacas, vindo de uma estrebaria que ficava dentro do próprio colégio. Ali tudo era primitivo e dava a impressão que
estávamos em alguma fazenda ou coisa
parecida.
- Uma imensa plantação de eucaliptos se estendia frente ao colégio terminando
em um barranco enorme até a rua Dr.
Mário Vicente.
- Mas voltemos novamente à narração dos fatos:
-Quando passávamos defronte um dos jardim do
colégio, nos encontramos com padre Isidoro, que alegremente veio nos
cumprimentar e desde então, minha tia
iniciou uma longa conversa com ele. De
início alguns assuntos sobre o colégio e
depois a conversa se tornou sobre a
Itália. Minha tia assim como padre
Isidoro eram italianos, e, sempre pensei que o mesmo fosse calabrês, mas depois
fiquei sabendo por uma senhora nossa conhecida que ele era vênito
-Recordo-me que Padre Isidoro me chamou para perto
de si, e, após algumas palavras, disse:
-Como você se chama menino?
- Sempre fui muito acanhado e
portador de uma timidez fora do normal, diante de estranhos não falava muito e se
algumas vezes dizia algo, era somente
quando interrogado.
Respondi para padre Izidoro bem
baixinho, a voz quase sumida. Eu me chamo Ernani, mas, olhava fixo para as feições daquele
homenzarrão alegre e ao mesmo tempo grave e tipo bonachão.
- Padre Isidoro era um homem
forte e grandalhão. Seu rosto tinha o formato arredondado e suas bochechas eram
afogueadas e vermelhas, como duas maçãs. Com certeza deveria ser devido ao
vinho. Não existe um italiano que não tome um bom copo de vinho entre as
refeições.
- Padre Isidoro com uma voz forte
como trovoada falou: Está com medo de mim garoto? Chega-te aqui
mais perto de mim, e enfiando as mãos em
um dos bolsos da batina tirou um santinho para me oferecer.
Peguei logo o santinho, e ouvi
novamente padre Izidoro dizer:
- Oh menino me dá um pouco a sua mão...
-Cheguei para perto dele. Até hoje
me recordo de sua mão enorme e peluda.
uma manopla tão grande que parecia a de um gigante. Se não
era enorme, pelo menos a mim parecia devido
o meu porte franzino diante de uma pessoa
enorme robusta como ele.
- Segurou-me pelo pulso e disse:
Fica com a mão bem mulinha, mulinha. -Eu
tão bobinho, ainda sorria, não sabendo e nem podendo adivinhar o que ia acontecer,
mas deixei me levar por aquela brincadeira.
- Padre Isidoro então balançando
minha mão continuadamente, foi cantarolando estas palavras em italiano:
- “Mane, mane morta, ló Dio te
comporta, ló pane, ló vino, ló caccio piccolino qui ló domane matino” . E acertou com minha própria mão um belo
tabefe em meu rosto. Propriamente dito,
não foi acertado no rosto, mas em minha boca, fazendo um ferimento em meu lábio
que ficou com um caroço do tamanho de um grão de bico.
- Fiquei com tanta raiva daquela
brincadeira mas , com medo, não reclamei
de nada.
Naqueles tempos, criança tinha
que ouvir, apanhar, ficar calado e se reclamasse de alguma coisa nunca tinha
razão. Isto acontecia em diversos lares , em diversas famílias.
-Hoje pergunto a mim mesmo, por
que não reclamei? Até hoje eu não sei.
Medo? Talvez sim, talvez não, mas
acho que a repressão era tão grande antigamente que muitas crianças se tornavam
acovardadas e medrosas. E no meu caso,
se eu tivesse reclamado, não teria adiantado nada. O certo eram eles, os
adultos. Logo mandavam a gente calar a boca e não restava mais nada do que a
criança ficar se remoendo de raiva.
Aquilo me deixou aborrecido e se a recepção foi um tabefe na boca,
pensei: O que será que me está reservado para o futuro?
O mais absurdo foi que minha tia
presenciou tudo e ainda disse: Ah, bobinho, Padre Isidoro estava apenas
brincando com você. Eu já conhecia essa brincadeira e sabia que ele ia bater
com sua própria mão em seu rosto.
- Por mais contrariado que eu
estivesse, fui matriculado. As aulas iniciavam às 8 horas da manhã e iam até às
11:00 horas quando saiamos para ir até em casa almoçar. Às treze horas tinha que estar lá novamente
para o segundo período que findava às 17:00 horas.
Já nesse primeiro dia de aula,
quando retornei no final da tarde, reclamei para minha mãe que não estava
gostando de estar o dia todo trancado dentro de um colégio, e que achava falta
de casa, principalmente de estar com ela, e também de algumas horas para minhas
brincadeiras, coisa normal para uma criança daquela idade. Porém, minha mãe disse: É bom ficar ali o dia
inteiro.
Até hoje não sei por que ela me
disse isto.
-Antes de iniciar o segundo
período, tínhamos que rezar o terço. A ladainha de Nossa Senhora. Quem dirigia o terço e as orações era o irmão
Leão, apelidado de “MOLHÃO”. Nunca entendi, por que ele tinha esse
apelido. Talvez porque ele andava sempre
com um molho de chaves e muitas vezes as atirava nos alunos.
- Irmão Leão era um padre
grandalhão, muito enérgico, prá não dizer
terrível, no tratamento com a
meninada.
- As crianças tinham verdadeiro
pavor dele, devido às maneiras estúpidas, que ele lidava com aqueles alunos, a
maior parte menores de dez anos. Nos dias de hoje daria cadeia.
-A reza do terço iniciava às 13
horas e terminava as 13:30 horas. O local onde rezávamos era em um amplo salão
no subsolo do colégio. O irmão Leão com uma vara na mão, ia dizendo as Ave Maria, e os Padre Nosso. Às
vezes, para que a fila não ficasse disforme irmão Leão ia caminhando e agitando uma vara no alinhamento
das filas para que todos ficassem retos e nenhum aluno fora da fila. Não era permitido conversas e nem cochichos,
e, ai de quem os fizesse! Após rezarmos
todas as Ave Maria e Padre Nossos, prá
finalizar, tinha ainda a ladainha de
Nossa Senhora em latim.
Então irmão Leão com voz grave,
mas meio cantarolada, ia dizendo a ladainha e, nós em uníssono íamos
respondendo:
Kyrie, eléison
(irmão Leão)
-Kyrie, eléison.
(alunos)
-Christe, eléison. (irmão Leão)
-Christe, eléison.
(alunos)
-Kyrie, eléison.
(irmão Leão)
-Kyrie, eléison.
( alunos)
-Christe, audi nos.
(Irmão Leão)
-Christe, audi nos. (alunos)
-Christe, exáudi nos. (Irmão Leão)
-Christe, exáudi nos. (alunos)
-Pater de cælis, Deus, (irmão Leão)
-miserére nobis. (alunos)
-Fili, Redémptor mundi, Deus, (irmão Leão)
-miserére nobis.
(alunos)
-Spíritus Sancte, Deus, (irmão Leão)
-miserére nobis. (alunos)
-Santa Trínitas, unus Deus, (irmão Leão)
-miserére nobis. (alunos)
-Sancta María,
(irmão Leão)
-Ora pro nobis
(alunos)
-Sancta Dei Génitrix, (irmão Leão)
- Ora pro nobis (alunos)
-Sancta Virgo vírginum, (irmão Leão)
-Ora pro nobis
(alunos)
-Mater Christi
(irmão Leão)
-Ora pro nobis
(alunos)
-Mater divínæ grátiæ, (irmão Leão)
-Ora pro nobis
(alunos)
-Mater puríssima, (irmão Leão)
-Ora pro nobis (alunos) .
(Este é apenas um pequeno trecho da ladainha,
existem outros versos que não foram colocados).
- E assim eram todos os dias antes de entrar
em aula, sem contar que muitas vezes durante essas orações, algumas orelhas
eram torcidas sem dó, por aquela manopla
enorme do sacerdote.
-Quanto aos alunos internos, quem
ensinava essas rezas era o irmão Francisco em uma igreja do prédio antigo.
Padre Francisco era mais suave
que o irmão Leão, mas também às vezes saia fora do sério com os alunos. Quem contava isso era minha própria tia,
aquela que foi comigo fazer minha
matrícula.
-
Contava que foi marcar uma missa para uma das irmãs que havia falecido
e, para isto teria que falar com irmão Francisco. Então ficou na própria igreja aguardando que irmão Francisco terminasse de rezar com
os alunos internos.
- Durante esse tempo ela pode
observar que, se algum dos alunos falasse alguma palavra, com outro
colega, a reza era interrompida com:
“Cala boca menino”! “você também sua peste” Daí então continuavam: O pão nosso de cada.... de repente um aluno gritava:
- Padre Francisco, o Joãozinho tá
me batendo!
- Fica quieto aí sua praga, senão vou te puxar as orelhas!
- Não demorava muito, novamente
algum dos meninos fazia mais alguma arte
e lá vinha o irmão Francisco com mais uns sermões e alguns puxões de orelhas. E
assim ia sucedendo até o término da reza.
- Essa igreja não existe mais.
Foi demolida juntamente com o prédio velho do antigo colégio. Foi uma pena terem botado abaixo aquele
patrimônio.
O que mais me encantava eram
aquelas enormes paredes com os corredores internos e, no meio, um belo
jardim. A igreja apesar da singeleza
era também muito bonita.
- Eu me recordo de dona
Francisca, uma professora nordestina.
- Dona Francisca era uma senhora
de estatura média. Era magra. Não era nem um pouco bonita, nem simpática e nem
tão pouco agradável com os alunos. Seus cabelos eram curtos e crespos, não sei
se eram assim por natureza ou
crespos artificialmente por meio de
permanente. Seus olhos eram severos e a voz grave com o sotaque bem
característico da região do nordeste, talvez da Paraíba. Senhora de pouca conversa, dizia logo aquilo
que estava pensando. Enérgica prá caramba, e nunca vi ela sorrindo. Ensinava Geografia, Ciências e História. Lembro-me de que, em uma ocasião, estávamos
estudando a Geografia dos rios do Estado de São Paulo.
Então Dona Francisca com seu
sotaque acentuado e com sua voz cantada, naquele tom bem original do nordeste, dirigiu-se
para toda a classe e disse:
- Hoje vamos falar sobre o rio
Tiétééé.
- “O rio Tiété, é um rio que corta o
Estado de São Paulo”.
- Então um dos alunos interrompeu, perguntando:
-
Não é Tietê, professora?
- Não! É Tiétééé! respondeu ela.
Ninguém procurava teimar com ela,
caso alguém teimasse, o tal aluno sofreria castigos e levaria uns belos puxões
de orelha ou algumas reguadas que, aliás, não era nem régua e sim uma madeira
grossa, de um centímetro de espessura, por
uns 30cm de comprimento. Tudo levava a crer que, havia sido tirado, de
alguma trava de cadeira, que havia se quebrado e ela pegou para punir os
alunos. – Eu mesmo experimentei aquele
pedaço de madeira, e sabem porque? Somente porque fui falar algo com meu
companheiro de carteira. Uma palavrinha insignificante, coisa de nada.
Nesse momento, dona Francisca
estava com uma visita na sala de aula.
Conversava com uma senhora, talvez sua amiga, ou mãe de algum aluno.
Apenas me lembro que ela virou o olhar para o meu lado, pediu licença para a tal
senhora visitante e,com aquele pedaço de madeira, veio furiosa pra cima de mim,
me batendo sem dó e piedade.
No mesmo instante, abaixei a
cabeça sobre a carteira e tentava me proteger com as mãos, e os braços,
mas nada adiantou. Tomei umas belas
pancadas que atingiram a cabeça, braços, ombros, e costas. Na hora fiquei com uma
raiva danada. Tão imbecil, medroso e também acovardado, não contei nada para
minha mãe e nem para o meu pai. Hoje quando me lembro fico só pensando que tudo
aquilo era uma monstruosidade e crueldade!
Onde já se viu uma instrutora de ensino agir assim, bater em uma criança
com apenas nove anos? Hoje em dia, se um professor fizer uma coisa dessas pode
ser preso.
PADRE JOSÉ
Padre José também devia ser
italiano. Tinha uma coroinha na cabeça. Essa coroinha nada mais é do que um circulo
raspado acima da nuca. Hoje não vejo
mais isso nos padres.
Padre José era jovem. Conhecia
música e era pianista, mas as vezes na falta de alguma
professora ou professor dava
aulas de matemática. Ele é quem
organizava o grupo de meninos para cantar os hinos pátrios como os do 7 de setembro. O hino nacional e o da
independência tínhamos de decorar e cantar na ponta da língua. Hoje poucas escolas ensinam este ato cívico.
Lembro-me de que, em uma ocasião um
de nossos colegas de classe e que era interno no colégio fez aniversário e sua
mãe foi visita-lo. Levou um bolo para
ele festejar juntamente com todos seus colegas de classe. Então saímos da sala de aula e fomos para uma das dependência do colégio onde havia um piano. Após havermos cantado o parabéns a você...
padre José começou tocar algumas músicas
no piano. Logo nosso professor de Geografia, que ficou em lugar de dona
Francisca também começou a cantar uma música italiana “ Estrada Del Bosco” e Padre
José acompanhava ao piano o professor,
que por sinal tinha uma bela voz.
- Padre José, também não era
muito bonzinho.
- Certa vez estávamos em aula, e
a professora precisou se ausentar da sala, mas deixou em seu lugar, um dos
alunos tomando conta da classe.
- Esse aluno ficou encarregado de
que, se alguém conversasse, era para ele escrever o nome no quadro negro.
- Eu era muito quieto quase não
conversava, mas naquele dia por azar fui dizer uma palavrinha com o colega da
carteira vizinha.
Mal havia falado e o menino tacou
meu nome no quadro negro. Já haviam mais
ou menos uns quatro nomes de alunos alí.
- Implorei para que ele apagasse
meu nome, mas o sujeitinho foi perverso e não retirou o nome de ninguém.
- Assim que a professora
retornou, olhou para o quadro negro, mas não disse uma palavra se quer.
- Logo em seguida foi dado o
sinal de saída anunciando o término das aulas. Eram 17:00 horas. Todos nós
arrumamos nosso material para regressarmos para nossas casas, porém, a
professora avisou: Todos estão dispensados, menos os alunos que estão com os
nomes escritos no quadro negro. Estes devem aguardar mais alguns instantes e
somente irão embora depois que tiverem conversados com padre José.
- Foram minutos terríveis, mas
não demorou muito o padre entrou na sala com uma régua de uns 30cm.
- Mandou que cada um de nós
estendesse-mos a mão e enquanto cada mãozinha era estendida, iam recebendo três
reguadas com toda força em cada mão.
- Tive sorte! Quando chegou minha
vez, ele olhou em meu rosto e disse: “Como você é novo aqui no colégio, vou te
dar apenas duas reguadas”. Mesmo assim minhas mãos ficaram irritadas e ardendo.
Fiquei com um ódio louco do padre José.
Detestava me levantar e pensar
que tinha que me arrumar e ir para o tal colégio. Nem parecia que ia para um
colégio e sim para um castigo.
- Felizmente aquele ano terminou,
não fui bem nos exames de fim de ano e, devido isso, fui reprovado e teria que
repetir novamente o terceiro ano primário.
- Quando meus pais tomaram
conhecimento, ficaram aborrecidos comigo, mas, ao mesmo tempo tomaram
consciência de que eu estudei durante todo aquele ano contrariado, e que por
esse motivo é que não obtive aproveitamento nos estudos.
-
Quando foi no próximo ano, fui para uma outra escola, a Escola Centro Independência,
na rua Costa Aguiar aqui no bairro do Ipiranga.
-
Nessa escola, minha professora do terceiro ano primário foi dona Altair
da Cunha. Até pouco tempo, me encontrei com ela e o marido no Banco Itaú. Ultimamente não
há tenho visto mais.
DEPOIMENTO DE ERNANI NOCCIOLINI

