sexta-feira, 4 de abril de 2014

ORFANATO CRISTÓVÃO COLOMBO - 1.949



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ORFANATO CRISTOVÃO COLOMBO

- Ainda guardo na memória, e se não estou errado, estávamos no mês de Março do ano de 1.949, e uma de minhas tias, a mais velha das irmãs de minha mãe, foi comigo até o colégio Cristovão Colombo para  averiguar as possibilidades de me matricular no terceiro ano do curso primário.
- Após algumas averiguações  e perguntas sobre as mensalidades, normas, horários e regras do colégio que era extremamente católico, tomamos o caminho de volta para casa.
- Saímos em uma das alamedas interna do colégio que apesar de ser de chão batido, era maravilhosa devido a abundante vegetação  e jardins floridos.   O sol de verão era ardente e avistava-mos os pássaros alegres cantarolando com alegria, na imensidão de arvores frutíferas, e pareciam tão felizes  e saudando aquela tarde tão linda e de um céu muito azulado.
- Defronte o velho prédio e capela do primitivo colégio,  havia um belo e imenso jardim florido e uma grande horta com plantações de vários tipos de legumes e hortaliças.  Ao longe ouvia-se o mugido das vacas, vindo de uma estrebaria que ficava dentro do próprio colégio.  Ali tudo era primitivo e dava a impressão que estávamos em  alguma fazenda ou coisa parecida.
- Uma imensa plantação  de eucaliptos se estendia frente ao colégio terminando em um barranco enorme até a rua  Dr. Mário Vicente.
- Mas voltemos novamente à narração dos fatos:
-Quando passávamos defronte um dos jardim do colégio, nos encontramos com padre Isidoro, que alegremente veio nos cumprimentar e desde então,   minha tia iniciou uma longa conversa com ele.  De início alguns assuntos sobre o colégio  e depois a conversa  se tornou sobre a Itália.    Minha tia assim como padre Isidoro eram italianos, e, sempre pensei que o mesmo fosse calabrês, mas depois fiquei sabendo por uma senhora nossa conhecida que ele era vênito
-Recordo-me que Padre Isidoro me chamou para perto de si, e, após algumas palavras, disse:
-Como você se chama menino?
- Sempre fui muito acanhado e portador de uma timidez fora do normal,  diante de estranhos não falava muito e se algumas vezes  dizia algo, era somente quando interrogado.
Respondi para padre Izidoro bem baixinho, a voz quase sumida. Eu me chamo Ernani,  mas, olhava fixo para as feições daquele homenzarrão alegre e ao mesmo tempo grave e  tipo bonachão.
- Padre Isidoro era um homem forte e grandalhão. Seu rosto tinha o formato arredondado e suas bochechas eram afogueadas e vermelhas, como duas maçãs. Com certeza deveria ser devido ao vinho. Não existe um italiano que não tome um bom copo de vinho entre as refeições.
- Padre Isidoro com uma voz forte como trovoada  falou:  Está com medo de mim garoto? Chega-te aqui mais  perto de mim, e enfiando as mãos em um dos bolsos da batina tirou um santinho para me oferecer.
Peguei logo o santinho, e ouvi novamente padre Izidoro  dizer:
- Oh menino me dá um pouco  a sua mão...
-Cheguei para perto dele.   Até hoje  me recordo de sua mão enorme e peluda.  uma manopla tão grande que parecia a de um gigante.   Se não era enorme, pelo menos a mim parecia  devido o meu porte franzino diante de uma pessoa  enorme robusta como ele.
- Segurou-me pelo pulso e disse: Fica com a mão bem mulinha, mulinha.  -Eu tão bobinho, ainda sorria, não sabendo e nem podendo adivinhar o que ia acontecer, mas deixei me levar  por aquela  brincadeira.
- Padre Isidoro então balançando minha mão continuadamente, foi cantarolando estas palavras em italiano:
- “Mane, mane morta, ló Dio te comporta, ló pane, ló vino, ló caccio piccolino qui  ló domane matino” .  E acertou com minha própria mão um belo tabefe em meu rosto.  Propriamente dito, não foi acertado no rosto, mas em minha boca, fazendo um ferimento em meu lábio que ficou com um caroço do tamanho de um grão de bico.
- Fiquei com tanta raiva daquela brincadeira mas , com medo,  não reclamei de nada.
Naqueles tempos, criança tinha que ouvir, apanhar, ficar calado e se reclamasse de alguma coisa nunca tinha razão. Isto acontecia em diversos lares , em diversas famílias.
-Hoje pergunto a mim mesmo, por que não reclamei? Até hoje eu não sei.  Medo?  Talvez sim, talvez não, mas acho que a repressão era tão grande antigamente que muitas crianças se tornavam acovardadas e medrosas.  E no meu caso, se eu tivesse reclamado, não teria adiantado nada. O certo eram eles, os adultos. Logo mandavam a gente calar a boca e não restava mais nada do que a criança ficar se remoendo de raiva.  Aquilo me deixou aborrecido e se a recepção foi um tabefe na boca, pensei: O que será que me está reservado para o futuro?
O mais absurdo foi que minha tia presenciou tudo e ainda disse: Ah, bobinho, Padre Isidoro estava apenas brincando com você. Eu já conhecia essa brincadeira e sabia que ele ia bater com sua própria mão em seu rosto.
- Por mais contrariado que eu estivesse, fui matriculado. As aulas iniciavam às 8 horas da manhã e iam até às 11:00 horas quando saiamos para ir até em casa almoçar.  Às treze horas tinha que estar lá novamente para o segundo período que findava às 17:00 horas.
Já nesse primeiro dia de aula, quando retornei no final da tarde, reclamei para minha mãe que não estava gostando de estar o dia todo trancado dentro de um colégio, e que achava falta de casa, principalmente de estar com ela, e também de algumas horas para minhas brincadeiras, coisa normal para uma criança daquela idade. Porém,  minha mãe disse: É bom ficar ali o dia inteiro.
Até hoje não sei por que ela me disse isto.
-Antes de iniciar o segundo período, tínhamos que rezar o terço. A ladainha de Nossa Senhora.  Quem dirigia o terço e as orações era o irmão Leão, apelidado de “MOLHÃO”. Nunca entendi, por que ele tinha esse apelido.  Talvez porque ele andava sempre com um molho de chaves e muitas vezes as atirava nos alunos.
- Irmão Leão era um padre grandalhão, muito enérgico, prá não dizer  terrível,  no tratamento com a meninada.
- As crianças tinham verdadeiro pavor dele, devido às maneiras estúpidas, que ele lidava com aqueles alunos, a maior parte menores de dez anos. Nos dias de hoje daria cadeia.
-A reza do terço iniciava às 13 horas e terminava as 13:30 horas. O local onde rezávamos era em um amplo salão no subsolo do colégio. O irmão Leão com uma vara na mão,  ia dizendo as Ave Maria, e os Padre Nosso. Às vezes, para que a fila não ficasse disforme irmão Leão ia  caminhando e agitando uma vara no alinhamento das filas para que todos ficassem retos e nenhum aluno  fora da fila.   Não era permitido conversas e nem cochichos, e, ai de quem os fizesse!  Após rezarmos todas as Ave Maria e Padre Nossos,   prá finalizar,  tinha ainda a ladainha de Nossa Senhora  em latim.
Então irmão Leão com voz grave, mas meio cantarolada, ia dizendo a ladainha e, nós em uníssono íamos respondendo:

Kyrie, eléison  (irmão Leão)
-Kyrie, eléison.  (alunos)
-Christe, eléison. (irmão Leão)
-Christe, eléison.  (alunos)
-Kyrie, eléison.  (irmão Leão)
-Kyrie, eléison.     ( alunos)

-Christe, audi nos.  (Irmão Leão)
-Christe, audi nos.    (alunos)
-Christe, exáudi nos.  (Irmão Leão)
-Christe, exáudi nos.   (alunos)

-Pater de cælis, Deus, (irmão Leão)
-miserére nobis.           (alunos)
-Fili, Redémptor mundi, Deus, (irmão Leão)
-miserére nobis.     (alunos)
-Spíritus Sancte, Deus,  (irmão Leão)
-miserére nobis. (alunos)
-Santa Trínitas, unus Deus,  (irmão Leão)
-miserére nobis. (alunos)

-Sancta María,  (irmão Leão)
-Ora pro nobis   (alunos)
-Sancta Dei Génitrix, (irmão Leão)
- Ora pro nobis             (alunos)
-Sancta Virgo vírginum, (irmão Leão)
-Ora pro nobis   (alunos)
-Mater Christi   (irmão Leão)
-Ora pro nobis  (alunos)
-Mater divínæ grátiæ,  (irmão Leão)
-Ora pro nobis  (alunos)
-Mater puríssima, (irmão Leão)
-Ora pro nobis (alunos)            .
(Este é apenas um pequeno trecho da ladainha, existem outros versos que não foram colocados).


-   E assim eram todos os dias antes de entrar em aula, sem contar que muitas vezes durante essas orações, algumas orelhas eram torcidas sem  dó, por aquela manopla enorme do sacerdote.
-Quanto aos alunos internos, quem ensinava essas rezas era o irmão Francisco em uma igreja do prédio antigo.
Padre Francisco era mais suave que o irmão Leão, mas também às vezes saia fora do sério com os alunos.  Quem contava isso era minha própria tia, aquela que foi comigo fazer  minha matrícula.
-  Contava que foi marcar uma missa para uma das irmãs que havia falecido e, para isto teria que falar com irmão Francisco.  Então ficou na própria igreja aguardando  que irmão Francisco terminasse de rezar com os alunos internos.
- Durante esse tempo ela pode observar que, se algum dos alunos falasse alguma palavra, com outro colega,  a reza era interrompida com: “Cala boca menino”! “você também sua peste” Daí então continuavam:   O pão nosso de cada.... de  repente um aluno gritava:
- Padre Francisco, o Joãozinho tá me batendo!
- Fica quieto aí sua praga,  senão vou te puxar as orelhas!
- Não demorava muito, novamente algum dos  meninos fazia mais alguma arte e lá vinha o irmão Francisco com mais uns sermões e alguns puxões de orelhas. E assim ia sucedendo até o término da reza.
- Essa igreja não existe mais. Foi demolida juntamente com o prédio velho do antigo colégio. Foi  uma pena terem botado abaixo aquele patrimônio.
O que mais me encantava eram aquelas enormes paredes com os corredores internos e, no meio, um belo jardim.   A igreja apesar da singeleza era também muito bonita.
- Eu me recordo de dona Francisca, uma professora nordestina.
- Dona Francisca era uma senhora de estatura média. Era magra. Não era nem um pouco bonita, nem simpática e nem tão pouco agradável com os alunos. Seus cabelos eram curtos e crespos, não sei se eram assim por natureza  ou crespos  artificialmente por meio de permanente. Seus olhos eram severos e a voz grave com o sotaque bem característico da região do nordeste, talvez da Paraíba.   Senhora de pouca conversa, dizia logo aquilo que estava pensando. Enérgica prá caramba, e nunca vi ela sorrindo.  Ensinava Geografia, Ciências e História.  Lembro-me de que, em uma ocasião, estávamos estudando a Geografia dos rios  do  Estado de São Paulo.
Então Dona Francisca com seu sotaque acentuado e com sua voz cantada, naquele tom bem original do nordeste, dirigiu-se para toda a classe e disse:
- Hoje vamos falar sobre o rio Tiétééé.
- “O  rio Tiété, é um rio que corta  o  Estado de São Paulo”.
- Então um dos alunos  interrompeu, perguntando:
-  Não é Tietê, professora?
- Não! É Tiétééé! respondeu ela.
Ninguém procurava teimar com ela, caso alguém teimasse, o tal aluno sofreria castigos e levaria uns belos puxões de orelha ou algumas reguadas que, aliás, não era nem régua e sim uma madeira grossa, de um centímetro de espessura, por  uns 30cm de comprimento. Tudo levava a crer que, havia sido tirado, de alguma trava de cadeira, que havia se quebrado e ela pegou para punir os alunos.  – Eu mesmo experimentei aquele pedaço de madeira, e sabem porque? Somente porque fui falar algo com meu companheiro de carteira. Uma palavrinha insignificante, coisa de nada.
Nesse momento, dona Francisca estava com uma visita na sala de aula.  Conversava com uma senhora, talvez sua amiga, ou mãe de algum aluno. Apenas me lembro que ela virou o olhar para o meu lado, pediu licença para a tal senhora visitante e,com aquele pedaço de madeira, veio furiosa pra cima de mim, me batendo sem dó e piedade.
No mesmo instante, abaixei a cabeça sobre a carteira e tentava me proteger com as mãos, e os braços, mas  nada adiantou. Tomei umas belas pancadas que atingiram a cabeça, braços, ombros, e costas. Na hora fiquei com uma raiva danada. Tão imbecil, medroso e também acovardado, não contei nada para minha mãe e nem para o meu pai. Hoje quando me lembro fico só pensando que tudo aquilo era uma monstruosidade e crueldade!  Onde já se viu uma instrutora de ensino agir assim, bater em uma criança com apenas nove anos? Hoje em dia, se um professor fizer uma coisa dessas pode ser preso.






PADRE JOSÉ

Padre José também devia ser italiano.  Tinha uma coroinha na cabeça.  Essa coroinha nada mais é do que um circulo raspado acima da nuca.  Hoje não vejo mais isso nos padres.
Padre José era jovem. Conhecia música e era pianista, mas as vezes na falta de alguma
professora ou professor dava aulas de matemática.  Ele é quem organizava o grupo de meninos para cantar os hinos pátrios como os do  7 de setembro. O hino nacional e o da independência tínhamos de decorar e cantar na ponta da língua.  Hoje poucas escolas ensinam este ato cívico.
Lembro-me de que, em uma ocasião um de nossos colegas de classe e que era interno no colégio fez aniversário e sua mãe foi visita-lo.   Levou um bolo para ele festejar juntamente com todos seus colegas de classe.  Então saímos da sala de aula e  fomos para uma das dependência  do colégio onde havia um piano.  Após havermos cantado o parabéns a você... padre José começou  tocar algumas músicas no piano. Logo nosso professor de Geografia, que ficou em lugar de dona Francisca também começou a cantar uma música italiana “ Estrada Del Bosco” e Padre José  acompanhava ao piano o professor, que por sinal tinha uma bela voz.
- Padre José, também não era muito bonzinho.
- Certa vez estávamos em aula, e a professora precisou se ausentar da sala, mas deixou em seu lugar, um dos alunos tomando conta da classe.
- Esse aluno ficou encarregado de que, se alguém conversasse, era para ele escrever o nome no quadro negro.
- Eu era muito quieto quase não conversava, mas naquele dia por azar fui dizer uma palavrinha com o colega da carteira vizinha.
Mal havia falado e o menino tacou meu nome no quadro negro.  Já haviam mais ou menos uns quatro nomes de alunos alí.
- Implorei para que ele apagasse meu nome, mas o sujeitinho foi perverso e não retirou o nome de ninguém.
- Assim que a professora retornou, olhou para o quadro negro, mas não disse uma palavra se quer.
- Logo em seguida foi dado o sinal de saída anunciando o término das aulas. Eram 17:00 horas. Todos nós arrumamos nosso material para regressarmos para nossas casas, porém, a professora avisou: Todos estão dispensados, menos os alunos que estão com os nomes escritos no quadro negro. Estes devem aguardar mais alguns instantes e somente irão embora depois que tiverem conversados  com padre José.
- Foram minutos terríveis, mas não demorou muito o padre entrou na sala com uma régua de uns 30cm.
- Mandou que cada um de nós estendesse-mos a mão e enquanto cada mãozinha era estendida, iam recebendo três reguadas com toda força em cada mão.
- Tive sorte! Quando chegou minha vez, ele olhou em meu rosto e disse: “Como você é novo aqui no colégio, vou te dar apenas duas reguadas”. Mesmo assim minhas mãos ficaram irritadas e ardendo. Fiquei com um ódio louco do padre José.
Detestava me levantar e pensar que tinha que me arrumar e ir para o tal colégio. Nem parecia que ia para um colégio e sim para um castigo.
- Felizmente aquele ano terminou, não fui bem nos exames de fim de ano e, devido isso, fui reprovado e teria que repetir novamente o terceiro ano primário.
- Quando meus pais tomaram conhecimento, ficaram aborrecidos comigo, mas, ao mesmo tempo tomaram consciência de que eu estudei durante todo aquele ano contrariado, e que por esse motivo é que não obtive aproveitamento nos estudos.
-  Quando foi no próximo ano, fui para uma outra escola, a Escola Centro Independência, na rua Costa Aguiar aqui no bairro do Ipiranga.
-  Nessa escola, minha professora do terceiro ano primário foi dona Altair da Cunha. Até pouco tempo, me encontrei com  ela e o marido no Banco Itaú. Ultimamente não há tenho visto mais.

DEPOIMENTO DE ERNANI NOCCIOLINI




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