segunda-feira, 9 de março de 2015

RUA DIREITA DOIS MIL E QUATORZE

Rua Direita anos 40
RUA DIREITA 2.014


Rua Direita:  gente que vem, gente que vai, gente que vê as vitrines.
Mas quem é aquela mulher que está defronte a loja  que toca o forró?
 O som é alto, dói os tímpanos de quem ouve e passa mesmo ao longe!
 Onde está a fiscalização e as leis do município que não observam isto?
A mulher dança ...  dança ...  sozinha! se gesticula toda, parece até que está possuída.  Sacoleja o corpo, se retorce e  gira. Agora parece um parafuso,   a pintura é  exagerada.  Moça feia. 
A boca se abre, fecha. Abre novamente a boca de uma maneira exagerada parecendo um marionete.  Agora não fecha mais.   Engano meu, fechou.  Coloca uma das mão na barriga, se abaixa devagarzinho; vai dançar o frevo,  pensei.
Largou os sapatos na calçada. Com os pés descalços ajudam mais ela se requebrar.  Agora com o ritmo acelerado do forró, ela se retorce cada vez mais. Parece uma salamandra jogada no fogo.  
Está transtornada,  entusiasmada no ritmo da dança nem pisca os olhos e parece não ver aqueles que passam e estão ao seu redor.
Parei um pouco, fiquei observando os movimentos.  Parece de borracha disse no pensamento. Não agüentei o barulho e o rodopiar da mulher. Vou ter uma crise de labirintite raciocinei novamente.
Boca pintada exageradamente, cabelos desgrenhados,short  minúsculo.
Fui à perfumaria O  Boticário. Voltei e a mulher continua dançando e se gesticulando no mesmo frenesi. Agora parece que rebola, com mais intensidade. Continua sempre com uma das mãos na barriga, e parecendo querer dar um grito,  faz uma  massagem num movimento sensual.
Passa um homem e diz: põe ela no fogão!  Será que sabe cozinhar?
Diz o outro homem: dá um tanque cheio de roupas sujas pra ela lavar... garanto que não sabe!
Entro na Sé, já saindo da rua direita,  noto que o mesmo pregador do evangelho que estava na minha ida, ainda está no mesmo local. 
Continua com a mesma pregação do evangelho. Anuncia a todos que passam o fim do mundo e todas as ameaças do apocalipse.
Usa um aparelhinho a pilha no microfone para não cansar a voz!
Um imitador de Luiz Gonzaga também continua a resfolegar sua sanfona e no som da Asa Branca,  procura angariar alguns trocados das pessoas que o rodeiam.
Geralmente os apreciadores são conterrâneos e saudosistas do Gonzagão!
Um maluco morador de rua, deitado embaixo da estátua do Padre José de Anchieta, aponta com o dedo indicador algo que somente ele vê. Abre a boca, não sei se de fome ou de sono. Aponta com o dedo novamente.  Fala  certas palavras que não dá pra se entender. Acho que  somente ele sabe e enxerga com quem está falando.
Caminho mais à frente, Mais um pregador tentando fazer  as pessoas que o rodeiam entender a parábola que Jesus falou sobre a videira. 
 Gritava em voz alta e empenhava-se de corpo e alma  fazer àqueles que o ouviam entender o evangelho  e a Parábola da videira e o lavrador.
Atravesso a praça  em direção ao metrô.
Desço as escadas rolantes. Uma mulher me olha.
Digo a ela: A praça da Sé dá um livro de páginas intermináveis!
Ela confirma com um gesto que sim.

Ernani Nocciolini
SP. 25 março/2.014

OBSERVAÇÃO: A foto postada é de Ernestina Salerno e o filho Reinaldo Barelli
Não tem nada haver com o conto Rua Direita 2.014

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