Rua Direita: gente que vem, gente que vai,
gente que vê as vitrines.
Mas quem é aquela mulher que está defronte a
loja que toca o forró?
O som é alto, dói os tímpanos de quem ouve e
passa mesmo ao longe!
Onde está a fiscalização e as leis do
município que não observam isto?
A mulher dança ... dança
... sozinha! se gesticula toda, parece até que está possuída.
Sacoleja o corpo, se retorce e gira. Agora parece um parafuso,
a pintura é exagerada. Moça feia.
A boca se abre, fecha. Abre novamente a boca de uma
maneira exagerada parecendo um marionete. Agora não fecha mais.
Engano meu, fechou. Coloca uma das mão na barriga, se abaixa
devagarzinho; vai dançar o frevo, pensei.
Largou os sapatos na calçada. Com os pés descalços
ajudam mais ela se requebrar. Agora com o ritmo acelerado do forró, ela
se retorce cada vez mais. Parece uma salamandra jogada no fogo.
Está transtornada, entusiasmada no ritmo da
dança nem pisca os olhos e parece não ver aqueles que passam e estão ao seu
redor.
Parei um pouco, fiquei observando os movimentos.
Parece de borracha disse no pensamento. Não agüentei o barulho e o
rodopiar da mulher. Vou ter uma crise de labirintite raciocinei novamente.
Boca pintada exageradamente, cabelos desgrenhados,short
minúsculo.
Fui à perfumaria O Boticário. Voltei e
a mulher continua dançando e se gesticulando no mesmo frenesi. Agora parece que
rebola, com mais intensidade. Continua sempre com uma das mãos na barriga, e
parecendo querer dar um grito, faz uma massagem num movimento sensual.
Passa um homem e diz: põe ela no fogão! Será
que sabe cozinhar?
Diz o outro homem: dá um tanque cheio de roupas
sujas pra ela lavar... garanto que não sabe!
Entro na Sé, já saindo da rua direita, noto que o mesmo pregador do evangelho que
estava na minha ida, ainda está no mesmo local.
Continua com a mesma pregação do evangelho. Anuncia
a todos que passam o fim do mundo e todas as ameaças do apocalipse.
Usa um aparelhinho a pilha no microfone para não
cansar a voz!
Um imitador de Luiz Gonzaga também continua a
resfolegar sua sanfona e no som da Asa Branca, procura angariar alguns
trocados das pessoas que o rodeiam.
Geralmente os apreciadores são conterrâneos e
saudosistas do Gonzagão!
Um maluco morador de rua, deitado embaixo da
estátua do Padre José de Anchieta, aponta com o dedo indicador algo que somente
ele vê. Abre a boca, não sei se de fome ou de sono. Aponta com o dedo
novamente. Fala certas palavras que não dá pra se entender. Acho
que somente ele sabe e enxerga com quem está falando.
Caminho mais à frente, Mais um pregador tentando
fazer as pessoas que o rodeiam entender a parábola que Jesus falou sobre
a videira.
Gritava em voz alta e empenhava-se de corpo e
alma fazer àqueles que o ouviam entender o evangelho e a Parábola
da videira e o lavrador.
Atravesso a praça em direção ao metrô.
Desço as escadas rolantes. Uma mulher me olha.
Digo a ela: A praça da Sé dá um livro de páginas
intermináveis!
Ela confirma com um gesto que sim.
Ernani Nocciolini
SP. 25 março/2.014
OBSERVAÇÃO: A foto postada é de Ernestina Salerno e o filho Reinaldo Barelli
Não tem nada haver com o conto Rua Direita 2.014


Nenhum comentário:
Postar um comentário