terça-feira, 3 de março de 2015

GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ E REMINISCÊNCIAS DO BAIRRO DO IPIRANGA

GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ, E  REMINISCÊNCIAS DO BAIRRO DO IPIRANGA




Estudei no Grupo Escolar São José no bairro do Ipiranga no ano de 1948.

Naquela época por aquelas redondezas ainda era muito  despovoado, havendo ainda muitos terrenos baldios.  A avenida Nazaré era pavimentada apenas do lado direito sentido de quem vai para o Sacomã,  e o asfalto além de ser de má qualidade, o trecho pavimentado chegava somente até a rua Moreira de Godoy. O restante da avenida após o número 900 era somente de terra e não existiam duas pistas, era tudo uma coisa só.
Nesta mesma avenida, ficava  o ponto final do bonde 4 Ipiranga,   ao lado do Colégio Nossa Senhora da Glória, que antigamente chamava-se “Seminário das Educandas,”  próximo a rua Moreira de Godoy e o Instituto de Cegos Padre Chico. 
O bonde Ipiranga vinha do centro da cidade, tinha o ponto de partida na  praça João Mendes defronte o prédio do fórum que naquela época ainda estava em construção.(antes era na praça da Sé o ponto de partida). 
Pois bem, assim que o bonde 4 Ipiranga e também de outras linhas como 32 Vila Prudente, 23 Fabrica, 33 Sorocabanos,  saiam da praça João Mendes, os mesmos seguiam rumo ao bairro entrando  pela rua Conde do Pinhal, Rua da Glória, Largo do Cambuci, Rua Independência, Avenida Dom Pedro I, Rua Tabhor e Rua Bom Pastor. Outras linhas de bonde seguiam pela rua Sorocabanos e outras, porém o 4 Ipiranga, continuava pela rua Bom Pastor até chegar na rua  rua Moreira e Costa e entrava a direita até chegar na avenida Nazaré onde fazia a penúltima parada na  esquina, onde atualmente é o Bar do Maninho. 
  Alguns meninos que seguiam com destino as aulas, esperavam os passageiros descerem, e  subiam no estribo do bonde, para ter o prazer de seguir apenas um pequeno trecho sem pagar.  Aproveitavam a distração do cobrador que na maioria das vezes ficava de  conversa com o motorneiro. Então  pegavam uma carona até o bonde chegar no ponto final.  Mas ficavam sempre atentos com o cobrador. 
Quando viam que este se aproximava,  pulavam do veículo mesmo este estando  em movimento.  
O termo usado pela molecada daquela época era “chocar o bonde”.  Isto é, ir de carona até um determinado lugar sem pagar passagem.
Uma ocasião para acompanhar outros meninos fiz isto, e, quando o bonde estava quase chegando próximo ao Grupo Escolar, pulei do coletivo em movimento. Resultado:  Sofri  uma queda tremenda, me sujando todo de terra. Incrível que os passageiros que aguardavam a chegada do bonde, não deram nenhuma atenção quando estava caído no chão e com a mala escolar ao lado. Ninguém veio perguntar se eu estava machucado ou não! Acho que criança não tinham muita importância naquela época. 
 Felizmente não aconteceu algo pior e fatal. 
Na volta encontrei com uma menina chamada Iracema, filha de uma senhora alemã, e pai português e que eram nossos vizinhos. 
Iracema  estava a caminho do Grupo Escolar, estudava no período vespertino. Narrei tudo o que   havia me acontecido, e porque estava com o uniforme daquela maneira, todo sujo de terra.
 - Ela ficou assustada e o comentário dela até achei engraçado quando me disse: “E o bonde não passou em cima de sua cabeça”?
 Vejam que inocência, se houvesse acontecido isto não estaria contando o fato a ela!
-Para o Alto do Ipiranga existia apenas uma linha de ônibus que também vinha do centro da cidade, e passava defronte o Grupo Escolar São José.  Eram os ônibus 22 Alto do Ipiranga, pintados de uma cor alaranjada com motor na frente. Faziam o ponto final nas proximidades da Rua Vergueiro e  Santa Cruz. 

 O PRIMEIRO DIA DE AULA NO GRUPO SÃO JOSÉ.


Um dia antes de iniciarmos as aulas,   minha mãe foi me levar até o Grupo Escolar, pois ali haveria uma reunião com os pais e alunos, e haveriam de ser esclarecidos todas as regras que deviam ser seguidas durante todo ano letivo.
Quem iria dar todas as instruções, era a diretora dona Laura Prestes Barros, pois assim era o seu nome.
O local estava lotado.  A maioria eram mães de alunos. Todos aguardavam  ansiosos para ouvir o que a diretora tinha a dizer. Devido a mistura de vozes e o tagarelar alegre da criançada o barulho ia se tornando cada vez maior naquela manhã de verão que, apesar de quente, estava um tanto agradável  devido uma suave brisa  que soprava e que chegava até nós.  Muitos se protegiam do sol  embaixo das copas das enormes   árvores que existiam, e que ainda existem dentro do pátio deste prédio. 
De repente pararam os vozerios e alguém avisou que havia chegado a Diretora. Tornou-se então um grande silêncio e todos ficaram atentos para ouvirem tudo o que a diretora  havia de dizer. 
Subindo  sobre um  pedestal que estava preparado debaixo de uma  daquelas árvores frondosas, dona Laura Cumprimentou a todos com um bom dia!
O silêncio foi total e ela num curto discurso,  foi ditando  todas as normas do colégio. 
 Em suas palavras não haviam  brincadeiras e nem se quer um pequeno sorriso.  Enquanto fazia a prédica,  ditava todos os deveres com  firmeza e austeridade. 
Havia naquela época muita severidade, e uma das advertências da diretora foi que, se algum dos alunos chegasse atrasado  teria: “Portão Fechado,” e que o uso do uniforme era obrigatório tanto para meninos como para as meninas. 
Os meninos, calça azul marinho e camisa branca, as meninas avental branco sobre o vestido e fita branca no cabelo.
Quem fosse sem uniforme, não entraria em aula.

Dona Laura possuía na diretoria um sino manual  que era para anunciar os horários tanto para saída do recreio, como para anunciar o término das aulas.  

Havia também uma outra senhora que   trabalhava  na diretoria do grupo escolar. O  nome dela era dona Laís. Esta  também era muito  enérgica tanto quanto dona Laura.  Ambas não toleravam alunos rebeldes e se houvesse reclamação por parte de algum professor, o aluno era severamente castigado.
Minha professora, se chamava dona Marta, uma pessoa ainda jovem de estatura média, morena clara, muito dócil e também dedicada na maneira de ensinar seus alunos.
Dona Marta morava no Cambuci, na rua Eulália Assunção próximo da Igreja de São Joaquim, ou Nossa Senhora da Glória, mais conhecida como “Igreja do Cambuci.” 
Todos os dias quando findavam as aulas, havia  na porta do Grupo Escolar São José,  um senhor que vendia um doce que as crianças chamavam  de “Machadinha”.   -O doce tinha duas cores: Amarelo e rosa.  O amarelo  era sabor  abacaxi, e cor de rosa era sabor de morango.
A criançada chamava o doce de machadinha, devido ele ser cortado com um machadinho, mas outros  chamavam de quebra-queixo.
Hoje não vejo mais daquele doce amarelo e rosa, vejo o quebra queixo de coco  que é de uma cor marrom escura.
Esses doces eram muito baratinhos, um pedaço custava cinquenta centavos.


GRUPO ESCOLAR SÃO JOSÉ E PRIMEIRA COMUNHÃO

Naquele mês de outubro do ano de 1948, os alunos de minha classe, e também de outras classes, fizeram a primeira comunhão em uma  igrejinha na rua Moreira de Godoy, e que faz parte do Instituto de Cegos Padre Chico. Mas as instruções de catecismo foram com uma professora de catequese ali do Grupo Escolar São José.
No dia da primeira comunhão a criançada estava em jejum total, e, após a missa, foi preparado uma mesa com bolos, e chocolatada ali no Seminário de Educandas. Hoje é Escola Estadual Nossa Senhora da Glória. 
Hoje já não há necessidade de jejum para se  comungar, foi abolido há muito tempo pela igreja católica.
Me lembro que cada aluno levou uma xícara de casa para tomar o chocolate. Até hoje não sei dizer o porque mandaram-nos  levar a xícara de casa. Talvez ali  no colégio não possuíssem xícaras suficientes para todos.  Levei uma linda xícara de porcelana que paguei bem cara, mas guardei por muito tempo.  Comprei a tal xícara,  no armazém do seu Moraes (assim era chamado), na rua Gomes Nogueira. 
Hoje  este armazém  de secos e molhados  não existe mais. O prédio foi totalmente reformado e no local agora é uma padaria.” A padaria Santa Cândida.”

Quanto ao antigo prédio de número 900 da Av. Nazaré, e que outrora pertenceu ao Grupo Escolar São José, até poucos anos funcionou a Faculdade São Marcos. Hoje não funciona mais.

Passei por lá estes dias e vi uma placa de VENDA ou ALUGA. (Não sei se é tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo, mas se não é, deveria ser).
O governo do Estado deveria comprar o prédio, cujo  construtor foi Ramos de Azevedo e a arquitetura é muito linda e não se vê mais construções tão bonitas assim nos dias atuais. 
Obs. Felizmente o prédio foi reformado e soube que atualmente está novamente funcionando como escola. 
Ernani Nocciolini, Ipiranga São Paulo, l2 de abril de 2.025

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