segunda-feira, 9 de março de 2015

RELIGIOSIDADE E CATECISMO

IPIRANGA
RELIGIOSIDADE E CATECISMO.

- Vamos ao catecismo, me disse um amiguinho  em  certo dia de domingo de manhã  fria, num  final de inverno  e de pouco sol.
- Catecismo?  Onde irão ensinar o catecismo?
- Vai ser na rua,  será hoje à tarde na rua Oliveira Melo com o Doutor Mario Vicente. Fala com tua mãe se ela deixa você ir comigo.  Hoje haverá distribuição de balas.
Balas? E quem vai fazer a distribuição das balas? Perguntei um tanto duvidoso.
-Também não sei, mas avisaram no domingo passado que quem fosse hoje, haveria de ganhar balas.
-Quando voltei para casa,   conversei  com minha mãe dizendo que um amiguinho da vizinhança, me havia convidado para assistir uma aula de catecismo e que ia haver distribuição de balas.   Ela autorizou , mas foi logo dizendo:
- Você pode ir, é muito bom que vá e trate de aprender direitinho e tome atenção naquilo que for dito.  Mas assim que terminar,  trate logo de voltar para casa, e não fique andando de um lado para outro com os  meninos, nem indo para muito longe de casa.
-Meu pai não era muito de religião, mas minha mãe era meio beata.   Gostava de eventos religiosos, procissões, novenas. Possuía um livrinho de capa preta chamado “Devotos de São José” além de diversas imagens de santos, e tudo quanto se referia a fé católica.
Gostava de fazer novenas.  As trezenas ficavam para dia primeiro de junho até o dia treze do mesmo mês,  dia de Santo Antonio.
Durante esses treze dias,  todas as noites eram acendidas uma lamparina para o santo.   Também  era devota de Santa Teresinha do menino Jesus! Tinha  a imagem da santa em um quadro como um porta retrato, cuja imagem da santa já   um tanto desbotada pelo tempo . Esta ficava sempre em cima da mesinha de cabeceira ao lado da cama.
Se benzia fazendo o sinal da cruz, quando alguém falava alguma coisa  contra os  padres e a religião.   Comentava e reprovava esses atos dizendo que pessoas assim  incrédulas e hereges seriam castigadas por Deus.   Se  alguma pessoa estava passando por algum momento difícil,  doença, falta de dinheiro, ou lhe sobrevinha algum acidente, era devido a falta de fé, de religiosidade,  incredulidade ou castigo.  Todo esse apego e intenso exagero fora  herdado de seus pais de nacionalidade italiana que desde criança Influenciaram e introduziram não somente  nela,  mas na maioria dos filhos uma fé sem limites e de um fanatismo exagerado,  obrigando-os  sempre a  estar metidos dentro da igreja, missas, rezas, procissões e jejuns.  E a cumprirem tudo o que era determinado pela liturgia da igreja.
Minha mãe era da pequena cidade chamada Ibiúna, Estado de São Paulo,  e a maior parte das pessoas da comunidade  iam tomar conselho com o padre. Se não era com ele era com a irmã  dele, a dona Augusta, uma senhora já de meia idade.
Desde a pré-adolescência minha mãe e mais duas de suas  irmãs eram cantoras do coro da igreja dessa cidade.  Cantavam por meio de partituras musicais, e os cânticos eram todos em latim.
Aprenderam a  música com um senhor dirigente da banda musical da cidade. Esse  senhor alem  de amigo da família ,  também era sogro de uma de  suas irmãs mais velha chamada Brazilina.Chamava-se  Paulino.
Paulino era professor de música muito bem conceituado daquela pequena e  atrasada cidadezinha de interior, que naqueles tempos era apenas  comarca de uma outra cidade vizinha.
Paulino ensinou a música para minha mãe e para  outras duas de suas irmãs  sem cobrar um tostão. Porém para mostrarem gratidão, pela paciência, e dedicação daquele senhor,   prometeram que assim que completassem o curso de solfejo cantado e estivessem aptas para cantar no coral, lhes dariam como presente um terno.
O coitado do Paulino se estivesse vivo  estaria esperando o terno até hoje.    Nunca deram, ficou apenas na promessa.
Mas também  nem sei por que fizeram tal promessa se elas não tinham um gato pra puxar pelo rabo.  Ajudavam a mãe que trabalhava dia e noite fazendo doces, para venderem no pequeno e desfalcado armazém que possuíam, ou  nas festas religiosas, ou então  em  algum circo que as vezes aparecia na cidade.
Conseguiam algum dinheirinho  extra quando havia missa cantada.
Quando havia essas missas, geralmente em dias religiosos então o padre pagava dez mil reis para cada cantora do coro, e para que elas cantassem com uma voz  limpa e afinada, ele distribuía alguns bombons  com licor antes do início de qualquer missa.
Meu pai não era chegado em religião, mas não  proibia e nem se opunha de minha mãe  freqüentar procissões, que em  época da semana santa quase sempre manifestava  o desejo de ir .  Nestas ocasiões ele a  acompanhava, e era  sempre na igreja de São José  na rua Brigadeiro Jordão, no  bairro do Ipiranga.
As procissões eram a Do encontro e  do Senhor Morto.
-Quando a procissão terminava, e entravam com os andores no interior da igreja, minha mãe ficava do lado de fora ouvindo certamente o coral ou alguns daqueles cânticos religiosos, talvez recordando os tempos da juventude quando era cantora da cidade em que nascera.
Meu pai então ficava pacientemente aguardando até o momento em que ela dissesse:  vamos embora!
Bem, voltemos ao assunto do catecismo.
O local onde  eram realizados o tal catecismo, era  defronte a um casarão térreo e antigo na rua Oliveira Melo esquina com doutor Mário Vicente. O prédio ficava sobre um pequeno barranco um pouco acima do nível da rua.  Haviam grandes janelas de modelo muito antigo de madeira e vidraças que se abriam para o interior da casa. A  porta era dupla e alta e devido a falta de pintura estava  velha e  descascada pela ação do tempo.   Nesse comprido e longo casarão  funcionava uma Escola Primária.  A  professora era dona Francisca. Uma  senhora já de meia idade e morava no mesmo prédio  da escola e as aulas eram em uma das salas que dava para a rua Oliveira Melo. As crianças haviam-na apelidado de “Chica Pelanca”.
Nesse mesmo casario havia uma outra entrada pela rua Doutor Mário Vicente o qual morava uma outra senhora muito religiosa e que dava aulas de catecismo.
Naquela escola tudo era antigo. Tanto a mesa da professora, o armário, as carteiras e um relógio tipo  despertador com seus  números enormes.  Havia também uma bandeira do Brasil, em cima do armário da sala de aula.
Dona Francisca muitas vezes ia até a cozinha, talvez verificar algo que estivesse cozinhando e deixava os alunos a vontade. Então algum dos alunos ia até o enorme despertador que ficava em cima de um móvel, e, adiantava  alguns minutos que era para sairmos mais cedo. Quando dona Francisca retornava para a sala e olhava para o relógio, ficava admirada dos minutos haver se passado tão rápidos.
Daí então quando saíamos da aula, íamos até um barzinho na rua Doutor Mario Vicente comprar sorvetes tipo picolé ou em massa,  vendidos em um copinho branco que se dissolvia tão rápido que a gente  comia ele também. Os sorvetes  eram feitos ali mesmo, em uma máquina barulhenta dentro de um balcão de madeira com uma pedra de mármore branca.
Os sorvetes eram de diversos sabores: Abacaxi, coco, limão. Custavam cinquenta centavos mas também era mais gelo que outra coisa.
O barzinho existe até hoje, só que agora servem também refeições.
Calçamento e asfalto nem se pensava por aquelas bandas, e o bairro mais parecia um lugarejo interiorano.  Os automóveis como eram chamados, também dificilmente  passavam por ali.   Havia  muitos terrenos baldios, e as casas eram escassas, mas também não existia poluição.
Voltemos as aulas de catecismo:  Ficamos ansiosos  aguardando  e olhando tudo o que acontecia.
Qualquer movimento, ou alguém que chegasse, a criançada já se alvoroçava, e o assunto principal era a distribuição das balas.

Vimos  chegar muitas crianças que não conhecíamos.  Talvez de algum lugar mais distante, e alguns meninos lá nos seus treze anos de idade tagarelava o tempo todo sem parar.  Cada um procurava assentar-se no melhor lugar.  De vez em quando certas meninas trocavam de lugar, talvez para ficarem mais próximas de alguma amiga.
A tarde estava um pouco fria. Naquele tempo os garotos usavam calça curta,  e poucos tinham blusas de frio e calça comprida, muitos iam descalços e poucos calçavam sapatos com meia.  O remédio era se contentar  com aquilo  que nossos pais podiam nos dar.

Eu e meu amigo, tomamos lugar em um daqueles bancos.    Aguardávamos o início do catecismo, mas a maior expectativa era a distribuição das balas.
Meu pai nunca negou nada para os filhos e, se sabia que a gente tinha vontade de alguma coisa, à noite quando voltava do trabalho sempre trazia aquilo que pedíamos, para satisfazer nossos desejos. Se pedíamos pastel, passava em alguma pastelaria do centro, e chegava com uma bandeja recheada com pastéis de palmito e queijo.
Se era doce de confeitaria, passava pela padaria Santa Tereza na Praça João Mendes. Comprava queijadinhas, bomba, bom bocado e pão de ló.
Poderia ter pedido algum dinheirinho para meu pai e ir comprar as balas que quisesse, mas desejo de criança é complicado. Talvez as balas distribuídas tivessem outro sabor!...
Não demorou muito e o meu amiguinho  falou:
-Olhe,  está vendo aquela senhora?
-Sim, respondi.
-Então! Ela já está distribuindo as balas, veja o cartucho que ela tem nas mãos... e, olhe que está cheio,  hein?
-A mulher passava por entre os bancos, pedindo que cada criança fizesse a mão em forma de concha e, nela depositava certa quantidade da guloseimas .
Percebi que com certas crianças ela passava direto e não colocava nada em suas mãos.
Era uma mulher de estatura média, magra, e de pouca beleza.  O rosto de uma brancura acentuada,  cor de vela e o semblante sério.  Não era de muita idade, mas parecia ser.   Os dentes pareciam cerrados enquanto falava.
Trajava um vestido escuro, e uma fita preta ou vermelha da ordem religiosa a qual pertencia pendurada no pescoço. A fita descia até o peito com a medalha de algum santo. Uma verdadeira beata!
Notei que essa senhora se aproximava, e, parava na frente de cada criança para dar um punhado de balas.
Quando chegou a minha vez, notei certa frieza no rosto e no olhar daquela senhorinha.   Foi uma cena que jamais esqueci.
Parou diante de mim.Olhei no saco de balas, levantei a cabeça.
Olhei  em seu rosto: era de uma palidez profunda. Senti um certo temor, parece que alguma coisa ruim ia acontecer.
-Então ouvi uma voz grave e severa  que  disse:
-Pra você,  não!!!  Você veio  hoje ao catecismo apenas para ganhar balas.
Não pude me ver no espelho naquele momento, mas a sensação foi a de que corei de vergonha.
Então ela continuou com a distribuição por entre a meninada e eu segui aquele vulto de roupagem escura,  caminhando  por entre as crianças.Fiquei triste e decepcionado.
Deu-se início ao catecismo, e pra minha surpresa vi novamente a figura daquela senhorinha tomar a dianteira diante das crianças, para o ensino religioso.
- Começaram a cantar um hino:  “ Os anjos, todos os anjos, louvem a Deus para sempre amem.”
“Bendito, louvado seja, o santíssimo sacramento.”
-Agora vamos rezar: Padre nosso que estais nos céus...   Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores...
Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida e doçura esperança nossa salve...
Daí então vinham os ensinamentos de catequese que, devemos amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos.
Mas eu não estava prestando nenhuma atenção naquilo tudo.
Estava magoado e minha vontade era  sair de lá correndo. Não sei por que não o fiz.
Arrependido e triste,  voltei para casa decepcionado, amargurado, e arrependido por ter aceitado o convite de meu amiguinho e talvez não contei nada em casa o que havia sucedido.
Não tenho lembrança se fiquei até o final do catecismo e se meu amigo me deu alguma das balas que ganhou, mas se fosse hoje talvez não aceitaria.
Depois de um certo tempo,  descobri  que a tal senhora, morava  no mesmo casarão onde era a  escola cuja professora era dona Francisca, da qual relatei no início.
Ambas residiam ali mas as entradas de suas casas eram diferentes. A da senhorinha das balas, a entrada era do outro lado da esquina, na rua Dr. Mário Vicente.
Uns dizem que ela se chamava, Carmela, Odete, outros que chamavam-na de Candinha. Só sei que  era uma freqüentadora assídua da igreja, e  dificilmente faltava as missas.
Certas coisas que acontecem na infância, dificilmente a gente esquece, tanto as boas quanto as más.
Temos que tomar muito cuidado com aquilo que falamos ou fazemos injustamente com uma criança, porque dificilmente ela esquece, e fica gravado em sua memória para o resto da vida.

Ernani Nocciolini      -  04 de março de 2.014




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